Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

Trova Nossa

Este Blog pretende ser um espaço de informação sobre várias matérias relacionadas com a Música e o Som de uma forma geral, mas irá ter uma preocupação muito especial com a nossa música tradicional, por um lado, e, por outro, com as Músicas do Mundo.
Estará, como é óbvio, à disposição de todos os que queiram colaborar nesta tarefa de divulgar a a nossa música e enriquecer, com o seu contributo, este espaço que se pretende de partilha.

Publicidade

Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 26 de março de 2010

"ComCordas" - Novo Projecto Musical


Há algum tempo atrás, um grupo de alunos da Universidade da 3ª Idade de Torres Vedras, abordou-me, porque queriam aprender a tocar Cavaquinho.
Conversámos sobre as intenções e expectativas do grupo e as condições em que se poderia avançar.
Não sendo um projecto da Universidade, mas sim uma iniciativa do grupo, havia que arranjar um local, para os nossos encontros, solução que foi encontrada no espaço da UDO - União Desportiva do Oeste.
Assim, semanalmente, já com 15 alunos, começámos a aprendizagem do instrumento.
Eis senão quando, surge a ideia de, a partir deste núcleo, formar um grupo de Cavaquinhos.
Amadureceu-se um pouco a ideia e a unânimidade fez concretizar a proposta.
Embora em fase de amadurecimento e consolidação, podemos anunciar a criação do grupo.
"ComCordas" - Grupo de Cavaquinhos de Torres Vedras, assim passará a chamar-se este novo projecto musical.
Brevemente daremos mais notícias.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Recordando... A Imprensa de Loriga

Ao vasculhar pelo baú, fomos descobrir esta preciosidade. O primeiro número do jornal "VOZ DE LORIGA", editado no longínquo ano de 1924, em Maio.
O que é interessante é que, comparado com o número zero, do mais recente "GARGANTA DE LORIGA", editado em Junho de 1992, encontramos alguns pontos de contacto.
Embora com 68 anos de diferença, desde logo, ambos têm como grande objectivo divulgar Loriga, depois, informar e unir as comunidades Loriguenses fora de Loriga, ainda, a denúncia e situações que necessitem de ser solucionadas e cuja solução tarde em chegar...
Enfim... Um sem número de intenções declaradas em ambos os editoriais e que, obviamente, se esperavam em projectos desta índole.

No entanto, como estes projectos não funcionam sem pessoas, encontrámos, nos dois projectos, como que uma ligação umbilical, familiar entre o pai, António Cabral Leitão, Director e Editor do primeiro e o filho, António José Leitão, fundador e membro do Corpo Redactorial do segundo.

Aqui deixamos as primeiras páginas de ambos, para memória futura.




Clicar nas imagens para ler

sábado, 20 de março de 2010

Recordando... A Romaria de Nossa Senhora da Guia e a Tradição das Loas


Foto www.loriga.de

Nos idos anos 40/50, escrevia o Sr. Padre António Cabral Lages, Pároco de Loriga e Presidente da Junta Paroquial, uma espécie de Junta de Freguesia da actualidade, sobre a Festa da Nossa Senhora da Guia e a forma como o povo de Loriga a vivia:

Os versos que se seguem, cantavam-nos os Romeiros, ainda não há muitos anos na Romaria da Nossa Senhora da Guia. Hoje, tudo passou, menos a Fé, da qual os Loriguenses se não envergonham, aqueles que levantaram aquele belo templo à Estrela dos Mares, que os protege nas suas viagens em busca da fortuna, do qual quiseram fazer um Santuário.
Estes versos que durante perto de meio século foram entoados no Adro da Capela, ecoando pela Serra, são a história singela dos milagres da Virgem e contêem as preces inocentes de tanto coração bondoso.

Estando eu em minha casa
Sentada a uma janela
Deitando os olhos ao largo
Vi uma linda Capela

Vi uma linda Capela
Perguntei de quem seria
Um anjo me anunciou
Que era de Nossa Senhora da Guia

De Nossa Senhora da Guia
Pequenina, toda airosa
Vem gente de muito longe
Para ver tão linda rosa

Nossa Senhora da Guia
Dizei-me onde morais?
Moro para lá da Catraia
Por entre os pinheirais

Foto loriga. eu

Aquele povo ao ver a Imagem canta ainda com mais fervor

Nossa Senhora da Guia
Ela lá em cima vem
Com seu menino ao colo
Seus cabelos ao desdém

Esta quadra diz-se também da Senhora do Espinheiro e do Desterro.

Nossa Senhora da Guia
Ela lá vem no andor
Com seu menino ao colo
Parece um resplendor

As trovas, num tom de infinita ternura e simplicidade, saem dos ranchos que andam á volta da Igreja, com o pensamento nos que mourejam longe, invocando Nossa Senhora, lembram o manto novo que lhe prometeram e a Virgem parece que sorri.

Nossa Senhora da Guia
Tens um manto a fazer
Cheio de estrelas brilhantes
Muito lindo há-de ser

A fama da Romaria chegou muito longe. A França, na Geografia popular é o país de que sabem o nome e que julgam mais longe e invocando a Protectora dos emigrantes rezam:

Nossa Senhora da Guia
Rosa Branca e Encarnada,
Até ao cimo da França,
Chega vossa nomeada

E perguntam algumas daquelas que prepararam o adro:

Nossa Senhora da Guia
Quem vos varreu o Terreiro?
Foram as meninas de Loriga,
Com um raminho de loureiro

Foto Blog loriga suiça portuguesa

A mesma pergunta fazem as Romeiras da Nossa Senhora da Cabeça.
E como que querendo a paga do serviço do embelezamento do Largo, recordando Pais, Irmãos e Noivos que são por longes terras ou no mar pedem:

Nossa Senhora da Guia
És uma Estrela brilhante
Dá saúde aos Loriguenses,
Aos pobres emigrantes


Foto Blog loriga suiça portuguesa

Percebe-se por este texto do Sr Pe. Lages e pela evocação das "Loas" - assim se chamavam os cantos do Romeiros - a grande devoção com que o povo de Loriga vivia esta festa secular.
Tratando-se de uma terra que viu partir, desde há muitos anos, alguns dos seus filhos, percebe-se a importância desta Romaria no contexto das festividades da região.
Sendo, na altura uma terra com muita indústria e bastante população, certamente aqui acorriam as gentes das terras vizinhas que assim se juntavam aos Romeiros locais e cantavam as "Loas".

sexta-feira, 19 de março de 2010

Homenagem ao Meu Pai...



Fernando Gonçalves - 1934 / 1997

Na passagem de mais um "Dia do Pai", não quero deixar de prestar aqui, uma homenagem a todos os pais, nesta evocação que faço do meu.
Fernando Gonçalves, nasceu em Loriga a 23 de Setembro de 1934, tendo vindo a falecer, também na nossa terra em 22 de Janeiro de 1997, curiosamente, no ano em que fui pai pela segunda vez.
Há coisas assim... perdi o pai... ganhei um filho! É o Ciclo da Vida.


Fernando Gonçalves, nasceu no seio de uma família de agricultores, mas viria a ser operário, como, aliás, a grande maioria dos loriguenses da sua geração. No entanto a terra sempre exerceu um grande fascínio sobre a sua vida, pois conciliou, ao longo da sua existência, a indústria e a agricultura.
Fernando foi sempre um inconformado e, por consequência, empreendedor.
Seguindo as pisadas do seu irmão Carlos, rumou a Lisboa, onde permaneceu alguns anos, mas como mais tarde se veria, não conseguia estar muito tempo longe da sua querida Loriga. Era o chamamento da terra...
Assim, regressa a Loriga e divide a sua actividade entre a fábrica e a agricultura, que nunca deixou definitivamente. Entretanto, seguindo a tradição de família, já que os seus irmãos também eram filarmónicos, ingressa na banda, onde tocava saxofone soprano.
Sendo o mais novo dos filhos de Abílio Luís Amaro (conhecido como Abílio "Tripa") e Maria Gonçalves, viria a casar com Maria Emília Florêncio Pinto, também, a mais jovem dos filhos de Joaquim Pinto Assunção (conhecido como Joaquim "Faztudo") e Amélia de Jesus Florêncio.
Desse casamento nasceram quatro filhos: a Mª Aurora, em 57, o Quim, em 59, o Ismael, em 61 e em 68, viria a nascer a Mª Raquel.
Sempre inconformado, viria a passar pelas várias fábricas de Loriga, com a excepção da Metalúrgica passou por todas as fábricas, mas também trabalhou na Fisel, em Seia e na Vodratex, em Vodra, em Passos da Serra e, tentou até a dura experiência da emigração.
Em 1969, foi "a Salto", assim se dizia da emigração ilegal, para o Luxemburgo, juntamente com um grupo de loriguenses e outros portugueses de proveniências diversas.
As pripécias que contava dessa atribulada viagem até ao Luxemburgo, são dignas dos filmes mais rocambolescos. Desde atravessarem rios a nado, até passarem fome durante vários dias ou andarem sem rumo, sem conhecer ninguém, nem falar as linguas das gentes dessas paragens, houve um pouco de tudo.
Mas chegaram ao destino sãos e salvos e rapidamente começaram a trabalhar.
No entanto, esta aventura duraria pouco mais que três meses, já que, segundo ele, se... - para ganhar algum dinheiro era preciso tanto sacrifício, preferia sacrificar-se na sua terra, junto da família.
Um dos companheiros de aventura dizia muitas vezes: - O Fernando não tem espírito de emigrante porque, a cada refeição, vê a mulher e os filhos no fundo do prato.
Era de facto assim. Para ele a família era o porto seguro.
Era rude com os filhos, muito exigente, como, aliás, era consigo próprio. Afinal, era esse o modelo que herdara de seus pais.


Uma das formações da Banda que incluía o meu pai
Foto Blog Filha de Loriga

Fazia amizades muito facilmente, daí que, onde quer que fosse deixava logo um rasto de amigos, pois era muito animado e divertido, fazendo parte daquele grupo restrito que, na banda, animava as noites nas casas e adegas dos mordomos nas terras onde a banda actuava.


Uma das formações da Banda que incluía o meu pai
Foto Blog Filha de Loriga

Sem ser beato, tinha uma religiosidade exigente que transmitiu aos filhos, tendo feito parte dos movimentos operários católicos como a JOC e a LOC. Mais tarde fez o Curso de Cristandade.
Tinha uma forte crença na vida eterna, que o leva, no período conturbado do pós 25 de Abril de 74, juntamente com um grupo restrito de carolas, a preservar a tradição da "Ementa das Almas", que outros, incluindo alguns frequentadores assíduos da igreja pretendiam que acabasse.
Era ele que, juntamente com o José Fernandes (mais conhecido por "Aleixo"), quer chovesse, quer nevasse, se levantavam mais cedo para andar, de porta em porta, a reunir os participantes deste ritual secular de Loriga, que contava, na altura com o veterano Ti Zé Garcia.
Durante anos o acompanhei sempre que estava em Loriga, pois estudava no Fundão, no seminário e, só na última semana da Quaresma e na Semana Santa me juntava a ele.
Vem destes tempos o meu interesse por esta tradição, porque ela era importante para o meu pai e recebi dele este legado.
Quando Michel Giacometi contactou o Mestre Ascensão, seu cunhado para recolher registos da Ementa das Almas, este chamou o Fernando e o Zé, não só para cantarem para que fosse gravado pelo Etnomusicólogo, mas, sobretudo, para explicarem, de viva voz, o que fazia um grupo de homens, levantarem-se de madrugada, para cantar, segundo eles, para ..."Aliviar as Almas". Hoje serão outros a cantar para aliviar a sua alma que, espero, repouse em paz...
Apesar de, nem sempre, como é normal em todas as famílias, nos entendermos na perfeição, sinto que, não seria o pai que hoje sou, se não tivesse um pai como o meu.
O meu agradecimento e a minha homenagem ao grande pai que tive.
Obrigado Pai!!!!


terça-feira, 16 de março de 2010

Recordando... Tradições da Minha Terra - A Semana Santa e a Páscoa


Se há época do ano fértil em acontecimentos marcantes na Tradição Loriguense é a Semana Santa e a Páscoa. A preparação da Visita Pascal deixava os lares num alvoroço. Era a altura de arear tachos e panelas.
Com a chegada da Primavera vinha também o sol que permitia pôr tudo a arejar. Era a altura da limpeza geral!... Para além disso a cozinha entrava também em superprodução... Eram as Broínhas, os Biscoitos, o Bolo Negro, o Pão Leve... e lá ia tudo para os fornos que, por esta altura estavam superlotados.
E havia que preparar as sobremesas especiais para o Domingo de Páscoa: O tadicional Arroz Doce com Creme, a Tapioca, tradição introduzida em Loriga pelos emigrantes do Brasil, o Carôlo, o Formigo e outras de acordo com a capacidade financeira e a criatividade das cozinheiras. Os rituais religiosos ganhavam, nesta altura, uma dimensão muito mais profunda, assente numa tradição secular de respeito, recolhimento e devoção profunda.
O Domingo de Ramos era marcado pelo denso "matagal" de oliveiras que enchiam as ruas e a Igreja. Sim, porque em muitos casos, não se transportavam ramos, mas autênticas oliveiras com troncos significativos.

Via Sacra dos Homens

À noite, a Via Sacra dos Homens, evocando a caminhada de Jesus até ao Calvário. Recordo os cânticos, entoados por aquelas vozes graves, soturnas e com ritmos quase fúnebres, carregando, ainda mais, uma quadra que, só por si, já era bastante triste.


Senhor dos Passos com Maria e João (imagens que protagonizam o Encontro)

Na Quinta-Feira Santa, a cerimónia do Lava Pés revestia-se de uma mística especial e aqueles homens que eram escolhidos para a integrarem, viviam aqueles momentos com um realismo que nos transportava para os tempos bíblicos. Este era, também, o dia da Procissão dos Passos onde se dava o Encontro do Senhor dos Passos com Maria sua Mãe e João.

O canto da Verónica - video de Tó Amaro

Também durante esta procissão cantava a Verónica, mostrando ao povo o pano com que tinha limpo o rosto do Senhor e no qual ficou retratado em sangue. Este ritual era tanto mais significativo, na medida em que foi protagonizado pela minha irmã Aurora, durante largos anos.

O canto da Verónica - video de Tó Amaro


Nessa noite participava, ainda, com o meu pai, na Ementa das Almas, com cânticos diferentes dos que se cantavam nas madrugadas de Domingo durante a Quaresma. Era a vez de cantar os Martírios, cântico que, de acordo com o que investiguei, é o mais "Gregoriano" de quantos fazem parte deste ritual.
Sexta-Feira Santa era um dia carregado de mística e, à hora marcada como a da morte do Redentor, 15 horas, todos faziam silêncio, onde quer que estivessem e meditavam por breves instantes neste mistério da morte de Jesus.


O Enterro do Senhor

À noite era o Enterro do Senhor, procissão carregada de simbolismo. A Banda Filarmónica executava uma Marcha Fúnebre. Confesso que, nos primeiros anos da minha infância, este ritual me causava um certo temor, já que os homens da Irmandade levavam as opas negras e cobriam as cabeças com os respectivos capuzes.


A Matraca

De salientar que, durante esta semana não se ouvia o sino. Este era substituído pelo ecoar estridente da Matraca que percorria as ruas da vila para anunciar os ofícios religiosos cumprindo a função que normalmente estava atribuída ao sino. Este voltava a tocar em toda a sua plenitude no dia da Ressureição, Domingo de Páscoa, quer para anunciar as cerimónias quer, sobretudo, para anunciar a, tão esperada e desejada por todas as crianças, VIsita Pascal, que em muitas zonas do norte é mais conhecida por "Compasso". Os sinos de Loriga, numa harmonia perfeita vão tocando a melodia que as crianças pelas ruas vão repetindo: - Andai, andai, andai... Que o Padre já lá vai!


Os sinos da Igreja de Loriga entoando a melodia que anuncia a Visita Pascal - video de Tó Amaro

Algumas destas práticas foram-se perdendo, mas penso que ainda perduram algumas delas e espero que os Loriguenses não as deixem morrer, já que são a marca indelével, da tradição religiosa, que nos foi legada, desta quadra festiva.

Fotos recolhidas em www.loriga.de de Adelino Pina