Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

Trova Nossa

Este Blog pretende ser um espaço de informação sobre várias matérias relacionadas com a Música e o Som de uma forma geral, mas irá ter uma preocupação muito especial com a nossa música tradicional, por um lado, e, por outro, com as Músicas do Mundo.
Estará, como é óbvio, à disposição de todos os que queiram colaborar nesta tarefa de divulgar a a nossa música e enriquecer, com o seu contributo, este espaço que se pretende de partilha.

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quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Tradições de Loriga - Mandamentos da Fome...


Há algum tempo que me dedico a recolher depoimentos, documentos, testemunhos... que me permitam escrever uma espécie de biografia do meu avô paterno Abílio Luís Amaro, mas conhecido pelo Abílio "Tripa",  alcunha que herdara da sua mãe, também ela conhecida como Ana "Tripa". Ao que parece, este alcunha derivaria de um dos seus ascendentes que seria natural do Porto, terra de "tripeiros" e, como tal conhecido por "Tripa".
Mas disso falaremos noutra ocasião e local, quando compilarmos o material necessário para concluir a tal empresa.

Abílio Luis Amaro
Hoje, tendo em conta os tempos que vivemos, gostaria de recordar alguns dos conselhos que o meu avô dava aos filhos, incutindo-lhes valores que hoje, apesar de mais letrados, a maior parte dos pais se revela incapaz de transmitir aos seus descendentes.
Assim, convém, antes de mais, traçar o perfil do homem, cuja história de vida se confunde com a história da agricultura em Loriga, na primeira metade do século XX. 
O "Ti Abílio" era o rendeiro mais disputado de Loriga, no início do século. Tal facto é atestado pela quantidade de tarefas para que era solicitado. Tendo a responsabilidade das terras da família Rocha Cabral, era o "caseiro" da D. Maria,  cuja família detinha a fábrica do Tapado, Sociedade Textil Moura Cabral, mais próxima dos nossos dias. As malhadas do Tapado e todas as courelas da zona da Fândega, bem como grande parte das terras do Avenal, incluindo as pertencentes à Sra. dos Anjos do Crisóstomo, que iam até aos Peliteiros, eram amanhadas por ele e pelos filhos. O segredo do seu sucesso estava na forma como adubava a terra, tirando desta mais rendimento, do que grande parte dos outros rendeiros. Para os menos avisados e informados destas coisa da agricultura, as rendas, na altura, eram pagas em produtos agrícolas, resultantes das colheitas recolhidas nas terras arrendadas. Ora, quanto maior fosse a produção, maior era o rendimento que os patrões recebiam, mas, também maior era o quinhão que o rendeiro guardava.
O Abílio adubava as terras com estrume de vaca, pois para alem das vacas que pertenciam aos patrões, a quem diariamente os filhos entregavam o leite, possuía e foi aumentando o numero, algumas de sua própria propriedade o que aumentava a quantidade do estrume e, por consequência a fertilidade das terras que amanhava. 
Quando os filhos começaram a ter alguma autonomia para o trabalho, entregava-lhes as tarefas do amanho dessas terras e ia trabalhar à jorna, em outros lugares e para outros patrões, aumentando assim o rendimento disponível da família, que ia ficando cada vez mais numerosa.
Casado com Maria Gonçalves, teve 10 filhos, mas apenas 6 sobreviveram. O Carlos, a Maria Emília, a Maria do Carmo, o António, a Maria Irene e o Fernando. Faleceram, entretanto, o Augusto, a Miquelina, o António e a Isaura.
Homem do campo, rude, mas muito divertido, era o responsável por muitos dos momentos mais animados da Vila de Loriga nessa época. Era ele que organizava os "Bailes e Contradanças" no Terreiro do Fundo, no Cabeço, na Fonte do Vale... Eram tempos em que uma simples Gaita de Beiços ou Realejo, como também lhe chamavam, servia para armar um baile e o "Ti Abílio" era exímio tocador. Os seus filhos foram todos músicos da Banda de Loriga, exigência da avó Ana que estendeu a exigência ao Augusto, filho da sua filha Glória.
Sendo um tempo de grande crise, devido, por um lado, às Guerras Mundiais e, por outro à própria situação da 1ª República e do início da magistratura de Salazar, o Abílio ensinava aos filhos alguns segredos, de boa gestão da economia familiar e assim, destaco hoje os "Mandamentos da Fome", uma lenga-lenga que ele quase obrigou a decorar aos seus rebentos e que a minha tia Irene e o meu tio António, únicos ainda vivos me passaram e considero que têm uma atualidade digna de registar:


Os Mandamentos da fome

Quem ganha um e come dois, nunca guarda nada para depois
Quem ganha dois e come três, nunca guarda nada para a outra vez
Quem ganha três e come quatro, nunca pode viver muito farto
Quem ganha quatro e come cinco, vive sempre muito faminto
Quem ganha cinco e come seis, nunca tem nada para dar aos reis
Quem ganha seis e come sete, nunca tem nada com que se espete
Quem ganha sete e come oito, nunca poderá viver muito afoito
Quem ganha oito e come nove, nunca tem nada nem para dar a um pobre
Quem ganha nove e come dez, no fim da velhice não tem que enfiar nos pés

  
Como se pode verificar, estes "Mandamentos" são um forte incentivo à contenção de gastos e à poupança, valor que, na época era precioso, tendo em conta a escassez de recursos.
Prometo voltar com outras curiosidades das Tradições de Loriga, para partilhar com os mais jovens, conscientes de que, quem não respeita o passado, não compreende o presente e arrisca-se a não ter futuro! 

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Como os outros nos vêem...

Há algum tempo atrás, a Inês Reis, jovem, recém licenciada em Comunicação  pela Universidade Nova de Lisboa, -  a quem, durante algum tempo, dei aulas de canto - pediu-me autorização, para traçar o meu perfil, no âmbito de um trabalho que deveria apresentar, para uma das cadeiras da sua licenciatura.
Como  normalmente não digo que não, a este tipo de coisas, anui e concedi-lhe uma entrevista, onde falámos de mim e de algumas das recordações de infância e juventude, em Loriga e nos seminários do Fundão e Guarda, que frequentei.
Para além de mim, falou com outras pessoas que me conhecem e comigo convivem, no sentido de melhor traçar esse perfil.
Acontece, que o trabalho foi realizado, apresentado e classificado e eu pedi, como não podia deixar de ser, uma cópia, para poder aferir se me revia ou não no perfil traçado.
O trabalho está muito bem elaborado, bem escrito e traça, de facto, um perfil da minha pessoa, que me deixou bastante comovido, em algumas partes da sua leitura, nomeadamente, com o depoimento do meu filho Sérgio, bem como um ou outro episódio, que me trazem à memória tempos e locais muito especiais.
Partilho, hoje, aqui, esse excelente trabalho da Inês, assinalando o quanto podemos ganhar quando paramos um pouco para pensar e reflectir ou quando deixamos que os outros nos mostrem como nos vêem...
Num tempo em que cada vez nos isolamos mais, é importante dar-mo-nos a conhecer aos nossos amigos e partilhar com eles as nossas alegrias... tristezas... sucessos... insucessos... 
É que, os verdadeiros amigos, são os que nos vêem como somos.... com os defeitos e com as virtudes... e nos criticam quando é necessário, mas nos apoiam, incondicionalmente, quando disso necessitamos.




A Inês tem feito parte de alguns dos meus projectos musicais. Podemos vê-la nesta foto comigo num desses projectos: "Cantares de Andarilho" - dedicado à divulgação da música do "Andarilho" Zeca Afonso.

Clique na foto do texto para ler todo o documento

Artigo de Inês Reis


sábado, 17 de novembro de 2012

Ribombar distingue alunos que completaram 5 anos no grupo...




Decorreu ontem, 16 de novembro, o Espetáculo da Abertura Solene do Ano Letivo do APVM, que teve lugar na sala do Centro Pastoral S. Sebastião, no Sobreiro Curvo.
Foi durante este espetáculo que os alunos que completaram cinco anos ao serviço do Grupo Ribombar, foram distinguidos com um Diploma e um crachá, para assinalar a sua dedicação.
Bruna Gigante, membro do grupo desde a sua fundação, apesar de já não frequentar a nossa escola, continua a manter a sua ligação, participando em muitas atuações; Jéssica Francisco, já não frequenta  a nossa escola há três anos, mas continua assídua, quer nos ensaios, quer nas atuações; Diogo Gonçalves, Gonçalo Ribeiro, Rafaela Silva e Tiago Santos, concluiram já o 9º ano e estiveram no grupo desde o 5º ao 9º completando o ciclo de 5 anos, sempre no ativo, bem como o Fábio Carreira, que continua a frequentar a nossa escola e, também ele, completou 5 anos no grupo. 
Para além de um reconhecimento para os laureados, poderá funcionar com um estímulo para os mais novos e reforçar o espírito de família que, desde o início tem pautado o funcionamento do grupo.
Este é, sem dúvida, mais um marco na vida deste projeto que tão bons resultados tem dado ao longo dos seus 7 anos de existência e que, para além de ser o símbolo do Agrupamento de Escolas, é, também, um embaixador de Torres Vedras e do seu Carnaval, onde, anualmente, tem presença marcante.
Aqui fica o video da nossa atuação:


domingo, 11 de novembro de 2012

Em Noite de S. Martinho... A Tradição das Chocalhadas


A noite de ontem em Sacavém - Foto de Fernando Moura Pinto

Cumpriu-se, mais uma vez a tradição das Chocalhadas de S. Martinho, quer em Loriga, quer em Sacavém pela mão da ANALOR.
Desta vez, em Loriga, com uma maior visibilidade que lhe foi dada pelo facto de ser incluída no programa de animação das Aldeias de Montanha e constituir, mais uma das Vivências d'Aldeia, evento apadrinhado pela Comissão das Marchas de Loriga.
Estes fenómenos de "exaltação da ruralidade" têm cada vez maior importância, quanto mais não seja para revisitar um tempo em que Loriga dependia, em grande medida, da indústria, mas em que o amanho da terra tinha uma importância primordial, na subsistência das famílias numerosas.
Por outro lado, a pastorícia é a atividade, provavelmente, mais ancestral das gentes da serra, pelo que estas práticas rituais, festivas e lúdicas, têm e sempre tiveram o condão de amenizar a rudeza e a dureza a que tais tarefas estavam sujeitas.
Já antes escrevi sobre este ritual das "Chocalhadas" aqui neste Blog:
http://trovanossa.blogspot.pt/2009/01/tradies-da-minha-terra-chocalhada-de-s.html
Mas hoje pretendia aprofundar um pouco mais a razão de ser deste e de outros rituais semelhantes, como a afirmação de uma identidade rural, um tanto incompreensível para as gerações mais jovens, que não tendo vivenciado essa ruralidade, têm dificuldade em compreender a importância que os mesmos assumiam para as comunidades rurais que os praticavam e continuam a preservar.
É importante que os mesmos sejam compreendidos e apreendidos pelas novas gerações sob pena de perdermos todos os laços que nos prendem ao passado  e, com isso, perdermos o fio condutor que nos pode apontar caminhos para o futuro.
Deixo aqui um texto interessante de um autor brasileiro, que encontrei, pesquisando na internet e que me parece explicar a importância da ruralidade e as suas tradições nas sociedades atuais.

A noite de ontem em Sacavém - Foto de Tó Amaro

A ruralidade e as suas tradições na sociedade da globalização
Identifica-se como característica da contemporaneidade não apenas a mobilidade espacial, mas, sobretudo, a simbólica que se expressa pela capacidade do indivíduo de mover-se entre vários universos culturais em diferentes escalas espaço-temporais, e de lidar com um amplo repertório de material simbólico – matéria prima para a construção ou redefinição de identidades sociais. A coexistência desses diferentes códigos simbólicos – num mesmo grupo, indivíduo ou localidade – distingue o cenário social das sociedades contemporâneas. Os indivíduos não pertencem mais a um só grupo ou localidade e, portanto, não têm mais uma única identidade distintiva e coerente. As identidades construídas e permeadas pela lógica cultural pós-moderna são híbridas, maleáveis e multiculturais.
 E, como as possibilidades tecnológicas e sociais de nossa época possibilitam aos indivíduos e aos grupos intervir em escalas territoriais múltiplas, esta construção identitária acaba por internalizar, muitas vezes, as contradições (ou os paradoxos) entre as diversas escalas de ‘pertença’.
Portanto, hoje já não seria mais possível pensar o mundo ou o espaço rural sem admitir que um mesmo espaço é sempre um espaço plural, onde há diferentes formas de se associar ou se identificar com um território (seja através da produção, do emprego, da ocupação, do património, da residência, da residência secundária, do lazer, do turismo).
Esta ausência de identificação ‘imutável’ de um grupo com um espaço conforma a chamada ‘desterritorialização’. Todavia, este fenómeno não anula a referência espacial, antes instaura uma forma de concorrência entre espaços locais ou regionais que devem e se tornam ‘jogadores’ dentro de uma série de ‘jogos’ sociopolíticos e socioeconómicos, fazendo valer suas potencialidades, em que as heranças ecológica, cultural, paisagística, social, ambiental acabam constituindo a diferença valorizada. E, embora estes processos toquem também ao urbano, às pequenas cidades, o mundo rural tornou-se predisposto atualmente a constituir o pólo do passado histórico, da herança, dos valores seguros, da sociabilidade convivial; em suma, a constituir o apoio dum imaginário e de práticas de relocalização.
Nesse sentido, a noção de ‘ruralidade’ pode ser pensada como um conjunto de categorias referidas a um universo simbólico ou visão do mundo que orienta práticas sociais distintas em ambientes culturais heterogénios. O rural não pode ser interpretado, portanto, apenas como a penetração do urbano-industrial naquilo que se definia convencionalmente como rural, mas igualmente pelo consumo, realizado pela sociedade urbano-industrial, de bens simbólicos e materiais e de práticas culturais reconhecidos como próprios do dito mundo rural. Assim, a ruralidade pode ser vista como um processo dinâmico de constante reestruturação dos elementos das culturas locais com base na incorporação de novos valores, hábitos e técnicas. Tal processo implicaria um movimento bidirecional no qual se pode identificar, de um lado, a reapropriação de elementos das culturas locais a partir de uma releitura possibilitada pela emergência de novos códigos e, no sentido inverso, a apropriação pelos urbanos de bens culturais e naturais do mundo rural, produzindo uma situação que não se traduz necessariamente pela destruição das culturas locais, mas que, ao contrário, pode vir a contribuir para alimentar as sociabilidades e reforçar os vínculos com a dimensão local.
José Marcos Froehlich


Partilho aqui o video de José Fernandes com imagens da noite de ontem em Loriga:


domingo, 21 de outubro de 2012

Após Obras de Ampliação... Casa da Cultura de Ponte do Rol Inaugura Novas Instalações


A Casa da Cultura de Ponte do Rol, vai inaugurar as suas novas instalações, resultantes das obras de ampliação que duraram alguns anos e passaram por várias fases.
No próximo dia 27 de outubro, pelas 16h, decorrerá a Sessão Solene de Inauguração. No entanto, durante mais de uma semana, serão realizados uma série de eventos culturais, no sentido de mostrar as potencialidades que as novas instalações vieram proporcionar.
Desde logo, as salas para a catequese, que funcionam já no primeiro andar em gabinetes próprios. Ainda nesse piso, um espaço polivalente, que poderá ser utilizado como sala para atividades como o Balet, que aí funciona neste momento ou outras. Também poderá funcionar como galeria para exposições. Aí decorrerá a Exposição de Pintura e Escultura que estará patente ao público de 27 de outubro a 4 de novembro. Teremos Pinturas de José Mendes, Olga Correia, Leila Baudouin e Domingos Broa e Esculturas de Nuno Vaza.
Esse mesmo espaço, pode também funcionar como pequeno auditório, para Música de Câmara ou pequenas Conferências ou Workshops. No dia da inauguração aí ouviremos os Ensembles da Banda da Juventude Musical Ponterrolense e o Grupo ComCordas.
No espaço do sótão, funciona um ginásio para actividades de dança  e ginástica.
Durante uma semana todas as atividades terão sessões abertas à população sem qualquer custo.
Para além disso, um conjunto de espetáculos em que juntamos grupos convidados, com grupos locais, como se pode comprovar pelo cartaz que anexamos.
No sábado 27, teremos um espetáculo onde reina a voz. O excelente Orfeão de Barrô com as suas 50 vozes divididas em 4 naipes, vai fazer-nos vibrar e deixar as nossa emoções à flor da pele. O nosso Coro Cant'Arte dará mais brilho a uma noite já de si tão brilhante.
No domingo 28, vindo  da bonita aldeia de Cabeça, situada num bonito vale da Serra da Estrela, chega o Balancé da Cabeça, um grupo que nos traz as bonitas cantigas do cancioneiro serrano. O Grupo Rufos & Roncos complementa este espetáculo dando-lhe um toque de juventude, provando que os jovens podem também gostar da nossa música tradicional.
No sábado, dia 3 é o lugar à dança, com o excelente grupo da Academia de dança de Vanesa Silva, da Póvoa de Stª Iria, muito bem coadjuvado pelo grupo Ponterrolense 1002 Danças.
Finalmente, no dia 4, Domingo, mais uma vez na nossa sala a brilhante Orquestra Ligeira Juvenil do CED de D. Maria Pia da casa Pia de Lisboa. 
Durante a Sessão de Inauguração será servido um Porto de Honra à população que se quiser juntar à cerimónia.
Aconselhamos todos a participar nas atividades e nos espetáculos. Esta é uma oportunidade que não se deve perder!