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Este Blog pretende ser um espaço de informação sobre várias matérias relacionadas com a Música e o Som de uma forma geral, mas irá ter uma preocupação muito especial com a nossa música tradicional, por um lado, e, por outro, com as Músicas do Mundo.
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segunda-feira, 3 de maio de 2021

Celebrar a Vida... 100º Aniversário do Padre Bernardo Terreiro do Nascimento

 Hoje foi um dia estranho!...

Preparava-me para partir para Lisboa, onde me esperava uma celebração solene no Mosteiro dos Jerónimos para celebrar os 100 anos do meu antigo professor de música do Seminário da Guarda, o talentoso Padre Bernardo Terreiro do Nascimento.

Não tinha , ainda, entrado na autoestrada quando toca o telefone. Era o amigo Padre Melícias, patrono do agrupamento que dirijo, com uma notícia de arrepiar. Informava-me que o Presidente da Câmara de Torres Vedras, Carlos Bernardes, acabava de ser encontrado sem vida em sua casa. Não queria acreditar no que ouvia! Após alguma troca de palavras eu disse para onde ia e o Padre Melícias diz: - Reza lá uma Avé Maria pela alma dele que ele era um bom homem. Assim fiz. Quando cheguei aos Jerónimos a celebração não havia começado e aproveitei para cumprir o prometido. Não só rezei uma Avé Maria, como também aproveitei para rezar um pouco mais pela alma deste irmão que partia com muito sofrimento associado.



Mas, o dia hoje era de celebrar a vida! A vida deste homem notável com quem me cruzei nos anos 70, logo após a revolução. Foi meu professor de música no Seminário da Guarda. Um homem com uma sensibilidade notável, um músico de eleição, como o prova a sua vasta obra. Como bem disse o D. Manuel Felício, Bispo da Guarda, durante a celebração, o Padre Bernardo, tal como Filipe e Tiago, apóstolos qua a igreja hoje celebra, foi também ele apóstolo que evangelizou através da sua obra musical. 


A convocatória da Associação dos Antigos Alunos dos Seminários do Fundão e Guarda já deixava antever uma celebração à altura do homenageado.

Caros Companheiros
Antigos Alunos dos Seminários do Fundão e da Guarda
O companheiro Pe. Bernardo Terreiro comemora o seu centésimo aniversário no próximo dia 3 de maio.
100 ANOS - MAGNÍFICO.
O evento será assinalado com uma Celebração Eucarística, presidida por V. Exª Rev.ma, D. Manuel da Rocha Felício, Bispo da Guarda
no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, no próximo dia 03 de maio pelas 17 horas.

Quem não se lembra do Sr. Pe. Bernardo Terreiro
Sacerdote da Diocese da Guarda desde 1947, apaixonado pela música e composição, dedicou essa paixão ao ensino e sobretudo à beleza litúrgica das
celebrações eucarísticas, dirigindo Coros por todo o país, mas sobretudo por toda a Beira Interior.
Compôs vários livros de música com cânticos que enaltecem as nossas igrejas e celebrações.
Fátima brilha mais longe e recordará para sempre o nosso Pe. Bernardo quando entoa o conhecidíssimo "MAGNIFICAT"
PARABÉNS, Sr. Pe. Bernardo 
Com Votos de muitos mais anos
Vividos na alegria e felicidade da família
e a Graça de Deus. 

A sua obra, no entanto, não se resume ao canto litúrgico, embora seja esse o campo onde mais se notabilizou.

Mas o Padre Bernardo colaborou com muitos colegas, párocos de diversas freguesias que, preocupados com a preservação de certas melodias populares que corriam o risco de se perder, as gravaram para ele as escrever e assim preservar esse património para as gerações vindouras.

É exemplo disto a publicação pelo Padre Jaime Pereira, de Alvoco da Serra, de, pelo menos, dois volumes do Cancioneiro Alegrias Populares, com partituras da autoria do Padre Bernardo.



Celebração 100 anos Pe. Bernardo - Magnificat

A mensagem que passou aos seus alunos era uma mensagem de respeito pelo humanismo e pelos valores culturais, onde a música tinha um lugar preponderante, mas também outras formas de arte eram apontadas como rituais de celebração à obra do criador. De facto, evangelizou através da sua capacidade e inspiração musical, espalhou o seu talento pelas instituições que serviu e seduziu pela sua sensibilidade e sentido de humor quantos se cruzaram com ele. 




O Jornal A Guarda noticía a homenagem de hoje com o seguinte texto que aqui partilhamos: 

"Celebração de Acção de Graças decorre no Mosteiro dos Jerónimos

O padre Bernardo Terreiro do Nascimento comemora 100 anos de vida, na próxima segunda-feira, dia 3 de Maio. A data será assinalada com uma Missa de Acção de Graças, na Igreja do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, presidida pelo Bispo da Guarda, D. Manuel da Rocha Felício, às 17.00 horas. A festa estava preparada para Almeida, mas a pandemia obrigou a alterar os planos iniciais. Apesar do contratempo, a família não quis deixar de assinalar uma data tão sugestiva e importante na vida de Bernardo Terreiro. Natural de Almeida, foi ordenado sacerdote no dia 7 de Setembro de 1947, depois de ter frequentado os seminários diocesanos do Fundão e Guarda. Na sua longa vida também exerceu o sacerdócio através da música, especialmente religiosa, compondo centenas de obras para orfeão. Fez o curso de Conservatório Nacional do Porto e vários cursos no país e no estrangeiro. Como professor de música dirigiu os coros dos Seminários do Fundão e Guarda, da Escola Superior do Instituto Politécnico da Guarda, da Covilhã, do Centro Cultural da Guarda e do Coro Etnográfico de Almeida. “Fui sempre seduzido pela Harmonia desde criança e a condução de coros, que me foi confiada ao longo da vida, criou em mim uma paixão”, escreveu no livro ‘Salmos Harmonizados para Orfeão’.Compôs vários livros de música, entre os quais ‘Cantando ao Senhor da Vida – Cânticos para celebrações’, ‘Salmos Harmonizados para Orfeão” e “Fátima e a Eucaristia”. O padre Bernardo Terreiro foi homenageado pelo Centro Cultural da Guarda, em 2011, por ocasião dos seus 90 anos de vida. Acérrimo defensor de Almeida e das suas gentes, Bernardo Terreiro foi, durante décadas, correspondente do Jornal A GUARDA, fazendo eco dos principais acontecimentos deste concelho raiano."

Após a Eucaristia foram cantados os parabéns e o aniversariante proferiu algumas palavras que ilustram a qualidade de vida e a lucidez que ainda mantém.


Celebração 100 anos Pe. Bernardo - Parabéns 
 
Uma das suas sobrinhas leu uma mensagem do Padre Álvaro, já falecido e irmão do Padre Bernardo sob a forma de acrónimo construído com o nome do Padre Bernardo. Esse texto foi destribuido no final da cerimónia a todos os presentes numa pagela que aqui publicamos.




Celebração 100 anos Pe. Bernardo - Mensagem Final



No final da cerimónia troquei algumas palavras com o Padre Bernardo e tive, mais uma vez uma prova da sua lucidez e do seu sentido de humor. 

Ao questioná-lo sobre um episódio ocorrido em 1975, demostrou que na sua memória retinha ainda as lembranças desse tempo longínquo. Perguntei-lhe como tinha ele convencido o Sr Bispo da Guarda, ao tempo o D. Policarpo da Costa Vaz, considerado um dos mais conservadores, a autorizar que se celebrasse uma " Missa Rock" na Sé da Guarda. ele respondeu com uma vibrante gargalhada dizendo:

-Até hoje eu ainda não consegui descobrir como o fiz. Mas que se fez a missa, com guitarras e bateria, fez-se sim senhor!

De facto, habituei-me a admirar não só o músico, não só o padre, mas sobretudo o Homem!

Obrigado Padre Bernardo por ter cruzado a minha vida! 100 anos não é para todos é só para alguns privilegiados e quis Deus que o senhor fosse um deles!

Parabéns pelos seus 100 anos!


 


terça-feira, 13 de abril de 2021

Loriga e os Bairrismos...

Publico aqui o artigo que escrevi e foi publicado na edição 143-fevereiro/março do Jornal Garganta de Loriga. Uma reflexão sobre a Loriga de hoje e as expectativas para o futuro.


Loriga e os Bairrismos…

É hora do Bairrismo de Ação!...

Ao pesquisar a palavra “Bairrismo” no dicionário encontrei três tipos de classificação da palavra:

1-afeição de uma pessoa ao seu bairro ou à sua terra

 

2-apego excessivo de uma pessoa ao seu bairro ou à sua terra, que a leva a sobrevalorizá-los em relação aos demais

 

3-figurado, depreciativo modo de pensar e/ou agir que revela estreiteza de perspetivas ou interesses; paroquialismo

 

Nesta minha reflexão gostaria de partilhar convosco a extensão deste termo e a forma como nós, os loriguenses, o usamos ou interpretamos nas mais diversas ocasiões.

Antes de mais, devo dizer que, fazendo jus à interpretação do dicionário, logo aí encontramos uma justificação para usar o plural e não o singular. Sim. Porque não há o “Bairrismo”… Há… “Bairrismos”.

Encontrar um loriguense que não se considere “Bairrista” é como “procurar agulha em palheiro”, adágio popular que aprendi em “pirralhito” com o meu avô, o Ti Joaquim “Faztudo”.

Todos nós ficamos “enchicharrados” quando vemos a nossa terra ser divulgada e louvada nos meios de comunicação social. Todos nos orgulhamos da “Suiça Portuguesa” ou “Princesa da Serra” ou mesmo “Rainha da Estrela”, títulos que ao longo do tempo a nossa Loriga foi acumulando.

Sabemos todos muito bem (digo eu) que a Loriga de hoje está longe dos tempos áureos do auge da Indústria dos Lanifícios, que fez da nossa terra um dos expoentes máximos do têxtil na Beira Serra.

Nos anos 60 do século passado nasciam em Loriga 200 crianças por ano. Nesta altura nem em 10 anos conseguimos esse número. Por isso, é preciso perceber que a nossa terra, pese embora os diversos “Bairrismos”, tem hoje uma grandeza, uma importância e uma dimensão que nada tem a ver com esses outros tempos.

Perguntar-me-ão o que é que isto tem a ver com “Bairrismo”?

À primeira vista, pode parecer que não há qualquer nexo de causalidade. Mas, já lá iremos e vão ver como tudo se encaixa.

Ouvi há uns anos um conterrâneo que teve responsabilidades autárquicas dizer, talvez de uma forma exagerada, que a “massa cinzenta” tinha fugido de Loriga e que por isso Loriga se degradava. Esta afirmação pode ser interpretada por uns como “Bairrismo” e pelos seus discordantes, como uma grande falta do mesmo.

Depois há, ainda, o “Bairrismo” dos loriguenses da diáspora “versus” o “Bairrismo” dos que ficaram em Loriga. Desde há muito que estes “Bairrismos” se digladiam ao ponto de surgirem expressões nada abonatórias como… “os filósofos do Trancão” e outras pérolas do género.

Recuando de novo no tempo ouviam-se expressões como: “Loriga é a capital dos barrocos!” Hoje, pelo contrário, ouve-se muitas vezes elogiar a capacidade empreendedora e a união das gentes dos ditos “barrocos”, constatando que a “velha capital” não consegue igualá-los mesmo com tantos “Bairristas” no seu seio. O exemplo do evento “Cabeça Aldeia Natal” é um dos mais apontados como paradigma desta realidade, mas o “Solstício” de Alvoco da Serra e outros eventos de outras aldeias também merecem destaque como expoentes do bairrismo das suas gentes.

Atenção!... Até agora apenas reavivámos a memória para enumerar um conjunto de factos e realidades facilmente constatáveis por quem ande um pouco atento. Não há aqui qualquer juízo de valor, pelo menos por agora.



Normalmente há a tentação de encontrar responsabilidades pela degradação das condições de vida e desertificação de Loriga em fatores externos. Mas estes não são os únicos responsáveis por isso. O abandono do interior pelos sucessivos governos, a excessiva centralização na sede do concelho da maioria dos (poucos) investimentos, são tudo realidades irrefutáveis.

Mas, como dizia Kennedy e adaptando a citação à realidade que pretendo retratar: “Não perguntes o que a tua terra pode fazer por ti, pergunta antes o que é que tu podes fazer pela tua terra.” Não basta dizer que se é bairrista, é preciso praticar o bairrismo! E este é que é o mote. Esta é a pergunta que todos os loriguenses que se julgam ou intitulam de bairristas deverão fazer a si próprios. O bairrismo de bancada não serve de nada à nossa terra! É preciso “meter as mãos na massa”! É preciso ação!

Espero que esta minha reflexão não seja interpretada como sobranceria, crítica pessoal ou mesmo uma posição de antagonismo contra qualquer instituição de Loriga.

Apenas pretendo lançar dados para uma reflexão coletiva para um “toque a reunir” que é urgente, para que não se percam algumas das marcas que nos identificam e nos diferenciam.

As associações de Loriga estão moribundas! A crise de dirigentes associativos é uma dura realidade que urge resolver. Dir-me-ão: - Não há gente em Loriga! Os dirigentes são os mesmos em várias instituições. As pessoas cansam-se mais.

Os grandes eventos de Loriga também se ressentem desta crise por falta de gente para os dinamizar.

Tudo isto é verdade. No entanto, se continuarmos a lamentar-nos a situação continuará a degradar-se. Há que encontrar caminhos, incentivando e formando os mais jovens para assumir, também eles, algumas responsabilidades nessa área. Os mais experientes têm o dever de deixar o seu legado aos mais jovens incentivando-os a participar e a praticar a cidadania ativa.

A Diáspora loriguense tem também uma responsabilidade para com a sua terra natal. Hoje temos muitos loriguenses residentes nas áreas metropolitanas que estão aposentados e com tempo para se dedicar a outras atividades. Porque não assumir algumas responsabilidades associativas em Loriga? Hoje as distâncias estão muito encurtadas e a comunicação está muito facilitada pelas redes sociais. Tal como é possível o teletrabalho também é possível o dirigismo associativo à distância. Poderá ser uma saída para a crise, desde que não se perca de vista a responsabilidade de estar presente quando tal for necessário. Há que praticar o “Bairrismo” de forma ativa, fazendo parte da solução.

Há muito tempo que o diagnóstico está feito. Todos sabemos qual é o problema. Temos é que nos focar na solução. E a solução passa por um compromisso de todos os que podem acrescentar. E são muitos.

Loriga tem cada vez menos pessoas residentes, por isso, todos, mas mesmo todos, sem divisões e sem cobranças temos o dever de participar na mudança de atitude e mudar o paradigma de “Bairrismo” de palavras para um “Bairrismo” de ação!

Todos somos poucos para levar a cabo esta mudança!

 Como dizia o meu avô Joaquim, pessoa muito sábia: “Mesmo que não consigamos melhorar se despiorarmos um pouco, já estamos a fazer muito.”

Loriga precisa de todos os “Bairristas”, mas precisa muito mais de AÇÂO!

 

Pinto Gonçalves

 


segunda-feira, 5 de outubro de 2020

O que comemoramos em 5 de Outubro?...

 Para Refletir...

Hoje comemoramos, por decisão governamental, como vem sendo hábito desde que foi implantada a República, o dia da sua implantação.
No entanto esta data tem uma efeméride, talvez a mais importante da nação portuguesa, que raramente é referida, sabe-se lá porquê!?... É a data do Tratado de Zamora.
 Os nossos governantes sempre que isso lhes convém, nomeadamente para se afirmarem em negociações europeias, afirmam que Portugal é a única nação europeia com as mesmas fronteiras e com uma história de oito séculos. No entanto, ignoram, ao invés da maioria dos países a data da sua independência. Comemoramos com pompa e circunstância a Restauração da Independência em 1 de dezembro de 1640, mas apagamos da nossa memória coletiva  o dia que marcou, efetivamente o nascimento do Reino de Portugal. Penso que já era tempo de, sem apagar a data da Implantação que se celebra hoje, incluir nas comemorações e com isso dar o devido destaque à comemoração do Tratado de Zamora e ao nascimento da Nação Portuguesa. Digo eu!!!


O Tratado de Zamora – 5 de Outubro de 1143

Neste dia um D. Afonso Henriques, com 34 anos de idade e com feitos militares incríveis tanto contra Castela e Leão, como contra Mouros, encontra-se com seu primo D. Afonso VII de Leão e Castela.

As vitórias militares impostas anteriormente, o desejo da nobreza Portuguesa em ser independente, e os inimigos Mouros comuns a Sul muito ajudaram à assinatura deste tratado.

Nele D. Afonso Henriques reconhece D. Afonso VI de Leão e Castela como Imperador de toda a Espanha. Mas garantindo com isso que D. Afonso VI de Leão e Castela o reconheça como Rei de Portugal.

Assim sendo a Independência estava assegurada de facto. E apenas pormenores legais com a Santa Sé adiaram mais trinta e seis anos o reconhecimento europeu.

Mas para todos os efeitos, a partir de dia 5 de Outubro de 1143 D. Afonso Henriques tornou-se o Rei de Portugal, e fundador da Dinastia de Borgonha.

Fonte: https://www.ofportugal.com/

Implantação da República

No dia 5 de outubro de 1910 deu-se a implantação da República em Portugal. Esta ação foi levada a cabo por um movimento de cidadãos apoiantes do republicanismo nacional e também pelo Exército.

Estes cidadãos não concordavam que Portugal fosse governado mais pela monarquia, cercam o Palácio Real e obrigam o rei a exilar-se na Inglaterra. Houve resistência em algumas cidades, especialmente no interior do país, mas a força das armas acabou se impondo.

Chefiados por Teófilo Braga, os cidadãos procederam a um golpe de estado, destituíram a monarquia constitucional e implantaram o regime republicano.

Após a proclamação da República foi criado um governo provisório chefiado por Teófilo Braga. Em agosto de 1911 foi aprovada uma nova Constituição, tendo início a Primeira República Portuguesa.

O primeiro Presidente da República foi Manuel de Arriaga, eleito pelo Parlamento a 24 de agosto de 1911.

Fonte: https://radionovaantena.com/

domingo, 9 de agosto de 2020

Loriga Vila Lusitana - Reflexão...

 Loriga Vila Lusitana - Festival Lusitânia Folk e Feira Lusitana

(publicado no jornal Garganta de Loriga) 

O ano de 2020 tem sido um ano atípico a todos os níveis, mas o setor da cultura é, sem dúvida, um dos mais afetados, senão mesmo o mais penalizado. Todos os Festivais, Feiras, Festas e Romarias foram cancelados ou adiados.

Apesar desta circunstância, o nosso evento não foi afetado, uma vez que já havíamos assumido que o ano de 2020 seria um ano de pausa. Temos, no entanto, muita vontade de retomar o evento em 2021.

Porém, há um conjunto de condicionalismos que, se não forem ponderados e ultrapassados, poderão inviabilizar a sua realização.

É urgente uma reflexão profunda de toda a comunidade loriguense, desde os responsáveis autárquicos, aos dirigentes associativos, aos empresários e até a cada loriguense individualmente, no sentido de nos questionarmos sobre a importância que este tipo de realizações tem para o desenvolvimento e sustentabilidade da nossa comunidade.

Voltando um pouco atrás, podemos verificar que este projeto nasce do querer, da mobilização e do sentido de comunidade que, quando verdadeiramente “queremos e cremos”, consegue transpor todas as dificuldades para, de forma exemplar, mostrarmos a força indómita da união dos loriguenses.

Foi assim na grande realização dos 500 anos do Foral! Foi assim no Orçamento Participativo que deu origem à primeira edição de Loriga Vila Lusitana! E será assim, sempre que nos unirmos em torno de qualquer projeto que acreditemos ser possível concretizar.

Já todos percebemos que a indústria que pode, neste momento, contribuir para melhorar as condições de vida e dar sustentabilidade à comunidade residente de Loriga é o Turismo.

A natureza dotou-nos de um enquadramento paisagístico de excelência. Este é sem dúvida um dos aspetos importantes para atrair visitantes. No entanto, só isso não chega! Em paralelo com este fator, há outros que podem e devem fazer a diferença, não só para atrair visitantes, mas para os manter connosco e contribuir para que repitam as visitas.

E é aqui que a cultura pode fazer a diferença!

As nossas tradições ancestrais, a música, a gastronomia, o património…

São estes fatores que marcam a diferença e quem faz essa diferença são as pessoas!

E é com esta convicção que dizemos que toda a comunidade deve refletir sobre estas questões.

Parafraseando John Kennedy, ao invés de nos perguntarmos: - O que é que a minha terra pode fazer por mim? Devemos perguntar: - O que é que eu posso fazer pela minha terra?

Todos somos poucos para realizar este desafio!...

Que ninguém espere medalhas ou reconhecimento. O maior reconhecimento e a melhor medalha é ver Loriga sobreviver ao definhamento e à desertificação que caracterizam o nosso interior. É evidente que há muita responsabilidade do “centralismo”, quer nacional quer regional, mas compete-nos a nós, a cada um, dar o seu contributo para inverter esta tendência.

Assim, voltando a centrar-nos no nosso evento, diríamos que a edição de 2021 deve ser pensada em comunidade.

O balanço das três edições anteriores, pese embora o grande esforço das equipas que as produziram, é francamente positivo.

Senão vejamos: Conseguimos realizar três edições do Festival Lusitânia Folk, com uma qualidade acima da média neste tipo de festivais. Mantivemos a sua internacionalização e isso é um grande fator de diferenciação e de promoção turística. Qualquer campanha de promoção internacional de Loriga custaria cinco vezes mais que o investimento total do festival.

Não falamos apenas dos grupos e artistas estrangeiros que atuaram no Lusitânia Folk, mas também nos portugueses que atuam nos melhores festivais estrangeiros deste género musical.

Passaram por aqui os nomes mais sonantes do folk celta em Portugal: Ronda dos 4 Caminhos, Galandum Galundaina, Albaluna, Roncos do Diabo, Espiral, Velha Gaiteira, Alma Menor…

Na última edição, por exemplo, os Beltaine, grupo Polaco que atuou no último dia, participaram no dia anterior no Festival Celta de Ortigueira, na Galiza e anunciaram aos 80 mil que seguiam a sua atuação, que no dia seguinte estariam em Loriga, na Serra da Estrela, em Portugal. 

Quando chegaram à Polónia publicaram nas suas páginas inúmeras fotos das nossas belas paisagens, divulgando junto de milhares de fãs a nossa natureza única.

Os Galegos Virandeira, da segunda edição, continuam a manifestar, porque os acompanhamos, o agrado que tiveram e a forma única como foram recebidos em Loriga. O mesmo acontecendo com os Feten Feten de Valladolid ou do Anxo Lorenzo Trio, que nos levaram para a Escócia, para a Áustria e para a Galiza.

Todos eles nos dão notícia de que falam de nós nos diversos festivais em que participam: em Espanha, França, Itália, Irlanda, Escócia, Alemanha, Polónia…

A avaliar pela quantidade de propostas de músicos e grupos que manifestam a sua vontade de participar no nosso festival, podemos dizer que esta é já uma marca que tem prestígio na comunidade internacional que segue a música celta, em particular, e a música folk, em geral. E o nome de Loriga está indelevelmente associado a esta marca de qualidade.

A nossa Feira Lusitana é outro fator de diferenciação, mas aqui podemos e devemos melhorar um conjunto de aspetos que, nomeadamente na última edição, não correram como seria desejável.

É aqui que a solidariedade e cooperação da comunidade se tornam mais importantes. É também aqui que as associações loriguenses podem e devem investir. E se investirem bem podem retirar dividendos que lhes permitam encarar cada ano com mais valor acrescentado. Só a título de exemplo, as associações do município de Óbidos sobrevivem quase o ano todo com as verbas que encaixam durante os dias do Mercado Medieval de Óbidos.

Se não nos unirmos e virarmos as costas uns aos outros ninguém ganha, mas, seguramente, Loriga perderá e muito!

Nas situações de cooperação e união temos sido fantásticos, com resultados notáveis! A construção da Casa de Viriato, a realização dos Rituais com o grupo de jovens, a confeção dos fatos com as costureiras voluntárias, as reconstituições históricas com o grupo de loriguenses da grande Lisboa, a solidariedade e os contributos monetários da Diáspora Loriguense… são exemplos ilustrativos do sucesso da união e cooperação.

Infelizmente também temos exemplos de egoísmo e falta de solidariedade e são esses que devemos a todo o custo evitar. 

A sustentabilidade financeira deste evento é a primeira e a maior das preocupações da equipa organizadora. Não houve em nenhuma das edições anteriores qualquer derrapagem financeira. No entanto, os pagamentos a todos os credores, nas duas últimas edições não puderam ser garantidos pelas verbas orçamentadas.

Este é um aspeto que tem que ser ponderado porque, embora compreendendo as dificuldades de liquidez da nossa Junta de Freguesia, não se pode realizar um evento em julho esperando que os artistas sejam pagos em dezembro ou em janeiro seguintes. Todos receberam a tempo e horas porque alguém, que não tinha obrigação de o fazer, adiantou essas verbas.

É com a consciência de todas estas dificuldades que partimos para a quarta edição, apelando a todos para que não deixem cair este projeto. Este projeto alavancou um conjunto de realizações culturais que aconteceram ao longo de todo o ano nos últimos três anos.

As celebrações do Equinócio, a Conferência sobre a Cultura Celta, as caminhadas com os almoços comunitários, são tudo ocasiões de dinamização da comunidade. São importantes na criação de uma cultura de comunidade e de realização coletiva que deve manter-se para estreitar laços e enriquecer o tecido social e económico, pois o comércio local tem muito a ganhar com este tipo de eventos.

Este ano de ausência de festividades pode e deve ser um momento de reflexão para que, nos anos vindouros possamos, com mais energia e vigor, apostar forte na consolidação de projetos como este, baseados e cimentados num esforço coletivo e solidário em prol daquilo que realmente conta e que nos deve manter unidos: A nossa Loriga!

Por Loriga e Para Loriga, sempre!...