Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

Trova Nossa

Este Blog pretende ser um espaço de informação sobre várias matérias relacionadas com a Música e o Som de uma forma geral, mas irá ter uma preocupação muito especial com a nossa música tradicional, por um lado, e, por outro, com as Músicas do Mundo.
Estará, como é óbvio, à disposição de todos os que queiram colaborar nesta tarefa de divulgar a a nossa música e enriquecer, com o seu contributo, este espaço que se pretende de partilha.

Publicidade

Pesquisar neste blogue

sexta-feira, 8 de março de 2013

Até já, meu irmão!...




Em situações como esta, a nossa memória leva-nos a procurar nos mais recônditos lugares do cérebro, episódios vividos, muitos deles que pensávamos perdidos, mas que continuam lá, bem guardados, para nos dar alento e conforto perante a dor lancinante que nos atormenta.
Recordo cada momento da nossa infância comum, em que eu, mais velho, era sempre responsabilizado pelas minhas e pelas tuas traquinices. Isso nunca fez esmorecer a nossa amizade e cumplicidade, antes a reforçou.
Eras verdadeiramente a minha sombra!
Quantas vezes eu te "enxotava" dizendo que queria ir sózinho e tu, qual "carraça" dizias: - Se tu vais, eu também vou.
Ao chegar a casa, depois de momentos bem vividos de alegres brincadeiras, com muita traquinice à mistura, como em Loriga tudo se sabe, os nossos pais já sabiam o que nós tínhamos "aprontado" e a sentença era sempre a mesma: - A culpa é tua, que és o mais velho! O menino só vai atrás de ti!...
Quantas "trilhas", como o pai dizia, não levei eu pelos dois!!!
Lembro-me, como se fosse hoje, do dia em que eu decidi abandonar a tarefa que nos tinha sido destinada - apanhar as batatas que o tio Zé Palas andava a arrancar, no quintal da "Manézinha"- e fugir para a ribeira, para o "poço forte". Aproveitei o momento em que fui ao sótão descarregar o "cesto barroleiro" cheio de batatas. larguei o cesto à porta de casa e lá vou eu em direção ao Avenal para ir para ribeira. Quando cheguei ao "poço forte" já tu lá estavas e em tom jocoso dizias: Pensavas que eu ia lá ficar, sózinho, a apanhar as batatas, não?...
Tantos e tantos episódios como este vivemos juntos, com a cumplicidade que nos era particular...
Agora, ao fim destes anos todos, compreendo que tu, mais novo, podias ser mais radical, mais traquina, mais atrevido... porque eu lá estava para te proteger. Tu sabias que podias esticar-te um pouco mais, porque eu, defendia-te sempre, tivesses razão ou não, porque tu eras e continuas a ser o meu irmão querido.
Recordo aquele dia em que tu estavas a  ser sovado em frente à sede do Grupo Desportivo, por ter dito a uma rapariga bem mais velha que ele ia despejar o "elétrico" (nome que dávamos aos baldes  em que se faziam as necessidade e que depois eram despejados nas estrumeiras) eu intrometi-me, disse-te para fugires e fui eu a vítima que todos queriam sovar, mas eu não me importei e, logo que encontrei uma aberta fugi eu também.
Quanta terra não cavámos juntos?... Quantos molhos de paus de mimosa não cortámos e carregámos, para as "callhorras" do Malhapão e do Cabeço?... Quantos molhos de erva não ceifámos para os coelhos?...
O pai dizia-nos para escolhermos bem a erva para não darmos "erva moleirinha" que matava os coelhos. Tu vangloriavas-te, muitas vezes dizendo: - Tanta "erva moleirinha" aqueles coelhos comeram e nenhum morreu por causa disso. Só o trabalho de estar a escolher a erva! Era ceifar, tudo a  eito e pronto!

São esta recordações mais recônditas, que agora me vêm à memória, pois foram os melhores tempos que vivemos juntos.

Depois, cada um tomou o seu rumo...

Mas esta vivências mantiveram-nos sempre unidos, cúmplices e, quando nos encontrávamos, deleitávamo-nos a reviver estas memórias. Ou então, cantávamos...



Power to all our friends... esta canção do Cliff Richard era inevitável, sempre que nos juntávamos numa tertúlia. A duas vozes, foi sempre um coisa que nos deu imenso gozo!
As cantigas do Rui Veloso, do album Mingos e os Samurais, fizeram furor, nas célebres "Noites do Luciano" de que nós fomos os grandes animadores, na senda  da melhor tradição dos "Tripas", mantendo viva  a memória do nosso avô Abilio, que tu mal conheceste, mas que também foi o responsável por grandes momentos de convívio, noutros tempos, na nossa terra. O mais curioso é que os nossos filhos alinhavam nestas tertúlias, com uma satisfação enorme... como se fosse natural... estava-lhe nos genes... o sangue quente dos "tripas" que se pelam por uma boa "festa"!... O Sérgio e a Mariana - a minha menina, como ele lhe chamava - juntavam-se a nós com alegria e energia complementando com as suas bonitas vozes, os "hinos" dessas noites quentes de verão. - Ó Loriga, como tu não há igual... - Sai fino Luciano sai fino... e o Zé Manel com a sua inevitável  - Tenho saudades...
Podia continuar...  a desfiar este rosário de recordações... indefinidamente... mas...
A verdade  pura e dura é que não vai haver mais momentos destes, porque tu não estás mais aqui!
Haverá outros momentos de tertúlia, até porque eu, sendo músico, sou muitas vezes solicitado para eles, mas não haverá mais nenhum contigo.... e isso deixa-me profundamente triste, muito triste, mesmo!...
Mas uma coisa eu posso garantir. Sempre que eu participar numa boa tertúlia, tu estarás comigo, porque eu vou sempre recordar-te como um grande companheiro, um "compincha", a quem dedicarei bons momentos de alegria e animação como tu gostavas de viver.

Entretanto... descansa em paz meu querido irmão! Até já Ismael!...
Ocorreu um erro neste dispositivo