Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

Trova Nossa

Este Blog pretende ser um espaço de informação sobre várias matérias relacionadas com a Música e o Som de uma forma geral, mas irá ter uma preocupação muito especial com a nossa música tradicional, por um lado, e, por outro, com as Músicas do Mundo.
Estará, como é óbvio, à disposição de todos os que queiram colaborar nesta tarefa de divulgar a a nossa música e enriquecer, com o seu contributo, este espaço que se pretende de partilha.

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sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Serra da Estrela e o Fumeiro... Economia familiar e economia de escala...


Na Wikipédia, encontrei esta descrição genérica de  FUMEIRO:

Fumeiro é nome genérico dado a carnes geralmente de porco, expostas ao fumo para conservação das mesmas ou para lhes conferir características únicas. Os presuntos e os enchidos ou embutidos são na sua maioria expostos ao fumo. Outras partes da carne de porco podem também sofrer o mesmo tratamento. Em diversas zonas da Galiza e outras zonas de Espanha e em distritos de Portugal como Vila Real, com maior destaque nos concelhos  de  Vinhais, Chaves e Montalegre), Bragança, Viseu (concelho de Lamego), Guarda e ainda no Alentejo, a indústria de fumeiro (também chamada de fumados) ou a feitura artesanal do mesmo é parte relevante da economia local.


No inverno passado, tive o privilégio de assistir, algures no norte, ao ritual da fabricação artesanal de enchidos.
Fiz alguns registos e, agora, com algum tempo decidi abordar aqui o tema do fumeiro e a sua importância na economia familiar da Loriga de outros tempos.
Ao rever estas fotos lembrei-me de escrever algumas linhas sobre este tema e pensar que,  nos tempos difíceis que vivemos, com a falta de oportunidades da região, se não seria uma ideia, pegar nestes conhecimentos ancestrais da economia familiar e, numa escala maior, poder lançar as bases de um negócio que, noutras latitudes tem atingido algum sucesso. É sabido, que  o clima frio propicia um fumeiro de qualidade. Ora, essa premissa, está garantida à partida. O resto é boa vontade e algum rasgo de empreeendedorismo. Haja vontade, uma vez que, ao que parece, até existem fundos comunitários para promover este tipo de projetos.

Fica a sugestão...



















Para complementar a informação deixamos aqui um artigo de Tiago Rentes, que encontrámos, ao pesquisar sobre o fumeiro. Ilustra muito bem todo o ritual que as famílias antigas  seguiam a partir da "Matança do Porco".

Da matança à "papança"...

Durante o Inverno, nas regiões do interior de Portugal é comum realizar-se a matança do porco, e daí obter o belo fumeiro (carne de porco exposta ao fumo), tão apreciado por todos.
Trás-os-Montes não é excepção, e é neste recanto do nosso país que o fumeiro, considerado uma das riquezas da gastronomia portuguesa, ganha características únicas como o cheiro e o sabor. 
O fumeiro que em tempos idos servia maioritariamente para consumo próprio, é hoje uma fonte de rendimento para várias famílias que vendem os seus produtos em feiras, como por exemplo, a feira do fumeiro deVinhais, muito conhecida a nível nacional, e noutros certames, principalmente gastronómicos.
Para que o fumeiro seja tão aclamado, requer conhecimento, que passa de geração em geração,muito trabalho e vários dias de confecção.
O trabalho começa ainda antes da matança do porco, com o arranjo das tripas que têm de ser bem lavadas com água morna, sabão, limão ou vinagre, e depois atadas.
O porco é geralmente criado pelas pessoas mas também  pode ser comprado.
Quando é morto, é-lhe aproveitado o sangue que posteriormente vai servir para a confecção do fumeiro doce, e queimado com um maçarico para ficar livre de bactérias e pêlos, depois é cortado em partes e limpo de vísceras.
A carne é cortada em pedaços pequenos, temperada com sal, pimento, água, vinho branco e rodelas de laranja.Permanece nesta espécie de calda durante dois dias.
As morcelas são o primeiro tipo de enchidos a ser confeccionado. Tendo como base o sangue do porco, esta espécie de “chouriça doce” é também constituída por pão,água, açúcar, canela, mel e amêndoa. 
Tradicionalmente este enchido serve de sobremesa. Come-se cozido.
No dia posterior ao da confecção das morcelas chega a vez de conceber as famosas alheiras.
Este tipo de enchido requer bastante trabalho e tem como ingrediente base o pão, que é migado ou cortado em fatias muito pequenas e finas.
Entre outros ingredientes, é essencial juntar ao preparado várias carnes cozidas, principalmente a carne do porco que fica junto aos ossos e uma galinha, e a gordura do porco que foi derretida ao lume. 
Tal como as morcelas, também as alheiras têm de passar por uma caldeira com água a ferver.
É muito comum comer este enchido assado.
O cheirinho a carne temperada abunda pela casa, e o quentinho da lareira ajuda a tornar o ambiente mais acolhedor para se começar a encheras tripas com os bocadinhos de carne.
Durante e após este processo, a tripa é picada para que liberte o ar e a carne fique unida.
Este enchido tem a particularidade de pingar gotas de tempero, durante aproximadamente uma noite.
Quando estiverem secas, as chouriças podem conservar-se dentro de potes de azeite e comerem-se cruas, assadas ou cozidas.
Depois de feito, todo o fumeiro é colocado em canas, e posto a secar ao calor da lareira e ao ar fresquinho das noites geladas do inverno rigoroso de Trás-os-Montes.
Passados oito a dez dias o fumeiro está no ponto e pode começar a ser consumido.
            Bom apetite!





segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Exposição Temporária de Instrumentos do Mundo no Museu do Brinquedo em Seia


Durante o mês de agosto, no Museu do Brinquedo de Seia, está patente ao público uma Exposição  sobre instrumentos musicais de todo o mundo. Estes instrumentos fazem parte da minha coleção pessoal e foram emprestados ao Museu do Brinquedo para que os visitantes possam enriquecer os seus conhecimentos sobre esta temática. Partilhamos aqui algumas das fotos com que o museu divulgou a exposição na sua página do Facebook

20 de agosto... Atualização de informação: Foi acordado entre mim e a Direção do museu que a Exposição permaneceria até dezembro, tendo em conta o interesse que vem sendo manifestado pelos visitantes. 





A Exposição  está dividida por continentes, sendo que Portugal tem um destaque, por haver num número significativo de Instrumentos Tradicionais Portugueses. Depois temos o resto da Europa, África, América e a Ásia e Oceania estão em conjunto.
Quem puder, não deve perder esta oportunidade de ver, ao vivo e a cores, um conjunto de instrumentos musicais que são reveladores da riqueza cultural das regiões de onde são originários. É que a historia de um povo, passa muito pela forma como interagem as pessoas e a música é, sem dúvida, uma linguagem verdadeiramente universal.


Atualização de Informação 10/8:


Estive hoje no Museu do Brinquedo, em Seia, para visitar a Exposição Temporária, construída a partir de uma parte dos Instrumentos Musicais da minha Coleção Pessoal e fiquei surpreendido com o resultado conseguido pela equipa do museu, a quem, desde já endereço os meus parabéns. De facto, os meus instrumentos ganharam brilho e tormnaram-se muito mais valiosos para mim, quando os vi naquela sala, distribuidos por continentes, a apelar aos visitantes para descobrirem a sua magia e a retratarem as culturas e as geografias de origem de cada um deles. Quem passar por Seia, não perca esta oportunidade e visite o museu.
Aqui ficam os registos fotográficos da minha visita



















sábado, 12 de setembro de 2015

Cirio de Vila Chã e Casais Galegos à Misericórdia...Tradição com mais de sete séculos.

Nos passados dias 7,8 e 9 de setembro, colaborámos na realização deste Círio de Vila Chã e Casais Galegos à Misericórdia. Vila Chã e Casais Galegos são duas localidades que pertencem à Freguesia de Ventosa, no concelho de Alenquer. As gentes destes locais, mantêm esta tradição desde o remoto ano de 1253, há, portanto 762 anos.





Capela de Nossa Senhora da Misericórdia  
Casal da Misericórdia, Moita dos Ferreiros - Lourinhã 

Mas o que levará esta gente a manter esta tradição durante tanto tempo? E porque  começaram a fazer isto? Que razões levam as pessoas a deslocar-se de um local no concelho de Alenquer, até um outro, localizado no concelho da Lourinhã, já muito próximo do Bombarral, com carros e tratores enfeitados e, ao chegar cumprir um ritual secular, permanecer aí durante dois dias, dormindo ao relento e regressar, cumprindo outras partes do ritual, dois dias depois?
Vamos contar um pouco da história, que faz parte de um prospeto de divulgação deste círio, publicado pela organização da edição de 2015, os irmãos, Maria Albertina Apolinário e Luis António Apolinário:

" Ao Santuário da Nossa Senhora da Misericórdia, acorreram, desde tempos remotos, oito círios que percorriam grandes distâncias, em devoção a Nossa Senhora, em cumprimento de promessas antigas. São eles: O Círio de Vila Chã e Casais galegos, Círio da Aldeia Grande, Círio dos Penedos, Círio de Vila Verde dos Francos, Círio da Labrugeira e, por fim, o Círio do Vilar, que, em peregrinação, rumavam anualmente, para aqui celebrar, todos os anos, as festividades da Natividade de Nossa Senhora, nos dias 7,8 e 9 de setembro. Em tempos houve, também, o Círio de Peniche, que se deslocava em romaria a esta capela, pela Páscoa, celebrando o Divino Espírito Santo. 
Hoje em dia, co esforço, dedicação e muita devoção, são cinco  os círios que realizam estas peregrinações anuais.
Esta tradição que, como referimos, tem já 762 anos, teve o seu início com o Círio de Vila Chã e Casais Galegos, que, por razões de escassez de água para as suas sementeiras, foram pedir auxílio a esta Senhora. Pensa-se que, por volta de 1600, por influência de uma epidemia fatal, tenham surgido os Círios de Vila Verde dos Francos e da Labrugeira.  Mais tarde, por volta de 1713, em cumprimento de uma promessa antiga, organiza-se o Círio da Aldeia Grande.
Durante séculos a peregrinação realizada por estes cinco círios, era efetuada em juntas de bois e carroças, percorrendo percursos bastante atribulados, demorando um dia e 3 ou 4 horas de viagem. Fruto da evolução, estes hábitos foram-se alterando, sendo o percurso, atualmente, efetuado por tratores agrícolas e carrinhas de caixa aberta, reduzindo significativamente a duração  para cerca de duas horas de caminho."

Vamos explicar melhor a concretização deste ritual.
O círio começa com o peditório, algum tempo antes. No caso concreto, começou a 30 de agosto, com os festeiros e o gaiteiro, como é de tradição a percorrerem as localidades envolvidas, pedindo para o círio e aceitando as encomendas dos bolos de ferradura.



O peditório...


O peditório foi realizado cinco lugares, Freixial de Cima, Freixial do Meio, Parreiras, Casais Galegos e Vila Chã. Começámos às 9h e acabámos perto das 21h, já de noite.

No dia 5 de setembro, sábado, mais uma etapa. Foi a"Entrega dos Mordomos". Trata-se de uma tradição muito interessante, na qual os responsáveis pelo círio, que no dia do peditório aceitaram encomendas dos Bolos de Ferradura (aqui apelidados de Mordomos), típicos da região Oeste, marcam um dia para a entrega dos mesmos e, nesse dia, em pontos chave de cada localidade, fazem a sua distribuição, sempre acompanhados do gaiteiro. 






Entrega dos "Mordomos"... 

O curioso é que, para além dos bolos, distribuem, também, vinho que irá servir para acompanhar a degustação dos mesmos. A distribuição começou às 18h, em Freixial de Cima, seguido de Parreiras e Casais Galegos e terminou já noite dentro, pelas 22h, em ambiente de festa, na localidade de Vila Chã.

E o dia do círio chegou!... No dia 7 de Setembro, segunda feira, o Círio de Vila Chã, em conjunto com o de Casais Galegos e ainda o de Aldeia Grande, rumaram à Misericórdia, onde ficaram até dia 9, quarta feira. 





Organizou-se o Cortejo em Vila Chã e seguiu em procissão até à saída da localidade, em direção a Casais Galegos. Aqui, juntou-se o cortejo desta localidade e ambos seguiram até à Aldeia Grande. 




O Círio da Aldeia Grande, bem maior que os que acompanhávamos, reunia um significativo número de carros, todos engalanados. seguramente umas duas dezenas de carros que seguiram em procissão com as bandeiras e os pendões à frente do cortejo, ao toque do gaiteiro, com temas religiosos, seguiu até às localidades vizinhas de Casais da Valentina e Valentina, também elas integrantes deste círio da Aldeia Grande.

Pelo caminho há uma paragem obrigatória na capela de Casal Novo dedicada ao Imaculado Coração de Maria. Aqui, para além de se fazerem algumas orações individuais e o gaiteiro tocar músicas de louvor a Nossa Senhora, alguns dos habitantes locais preparam um lanche que oferecem aos romeiros dos círios.


Capela do Imaculado Coração de Maria
Casal Novo, Moita dos Ferreiros - Lourinhã 

Chegados à localidade de Casal da Misericórdia, na Freguesia de Moita dos Ferreiros, concelho da Lourinhã, onde se situa a capela, cada círio organiza a sua procissão que, após dar três voltas à capela, termina com a entrada nesta, para que os romeiros possam agradecer as graças concedidas ou cumprindo as suas promessas ou pedir outras graças e bênçãos a Nª Srª da Misericórdia.








Depois dos compromissos religiosos vem a festa e a animação, sempre presentes nestas ocasiões em que as pessoas se reúnem, em volta de tradições e rituais de caráter mais espiritual.
A animação durou até à noite e, no caso do círio da Aldeia Grande, foi pela noite dentro.
O dia seguinte, dia 8 de setembro, foi o dia da Missa Solene. Era o dia da Natividade de Nossa Senhora e o cântico de Entrada, bem como o Cântico final, dedicados a Maria, foram acompanhados com órgão e gaitas de foles. Foi lindo!...






Depois... foi a animação e o almoço em jeito de piquenique.






No dia 9 de setembro era o regresso. Chegava ao fim o Círio de Vila Chã e Casais Galegos. Após a missa, ainda na Misericórdia, os círios regressam às suas localidades de origem.
Era, também, o dia da "Entrega da Bandeira" aos "Festeiros" do próximo ano.
Este ano coube a Vila Chã e no próximo ano a Casais Galegos. 
Começámos com alguma animação junto à Associação de Vila Chã.


Depois, lá fomos em procissão, ao som de gaita de foles, com repertório religioso, de Vila Chã até Casais Galegos, para entregar a "Bandeira" (pendão do círio, com a imagem de Nª Srª da Misericórdia), na casa da "festeira" do próximo ano.








Foi uma experiência muito interessante e gratificante  na qual participámos na qualidade de gaiteiro.
Mais uma tradição que vivenciámos e que aqui divulgamos, com o propósito de ajudar a  preservar e incentivar os intervenientes, para que não se percam na voragem destes tempos, pouco propícios a rituais baseados nos valores espirituais, de um povo que tem sobrevivido suportado  nestes valores.








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