Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

Trova Nossa

Este Blog pretende ser um espaço de informação sobre várias matérias relacionadas com a Música e o Som de uma forma geral, mas irá ter uma preocupação muito especial com a nossa música tradicional, por um lado, e, por outro, com as Músicas do Mundo.
Estará, como é óbvio, à disposição de todos os que queiram colaborar nesta tarefa de divulgar a a nossa música e enriquecer, com o seu contributo, este espaço que se pretende de partilha.

Publicidade

Pesquisar neste blogue

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Loriga Vila Luistana - De "dentro" para "fora"... O Balanço que se impõe.

No passado dia 19, teve lugar em Loriga, uma sessão de apresentação de contas e respetivo balanço, di evento, Loriga Vila Lusitana. Com o Salão Paroquial praticamente lotado, a Comissão Organizadora do evento prestou contas perante a população de Loriga. Afinal de contas, este evento nasceu com o grande objetivo de envolver os loriguenses e as suas associações e esse desiderato foi conseguido.
Há uma quase unanimidade de opiniões que nos impelem a continuar, uma vez que, de acordo com a grande maioria, há muito não se via uma realização de tamanha grandeza e interesse na nossa vila.
Enquanto mentor deste projeto, não quis deixar de fazer o meu balanço e, fiz questão de o partilhar, em primeira mão, com todos quantos estiveram na sessão referida.
Assim, partilho aqui, com todos os que queiram dar-se ao trabalho de ler, o texto do meu balanço do evento:

Há alguns anos - uns nove ou dez - questionei-me sobre a importância de alguns eventos conhecidos, na economia das localidades e regiões que os realizam e pensei se não seria interessante, Loriga e a região produzirem um evento, marcante, que pudesse gerar não só algumas receitas, mas, sobretudo, alavancar alguns pequenos negócios que poderiam prosperar à volta dessas realizações.
Desde logo, sendo a minha área de trabalho a música, pensei num festival. Mas não poderia ser um festival qualquer. Não podia ser um festival de massas, com grandes patrocinadores e multidões envolvidas. Loriga, não teria estrutura para aguentar uma realização desse tipo. No entanto, também não poderia ser uma coisa com uma dimensão tão reduzida que passasse despercebida, pois, nesse caso, não cumpriria o grande objetivo que estava traçado.


Começou, então, um período de estudo e investigação sobre o modelo, o tema, o enquadramento, o contexto, em que poderia ocorrer um evento deste género.
Pensando na História e na Geografia da nossa região, desde logo, a primeira inclinação foi para o período áureo da resistência dos Lusitanos contra os Romanos. Este tinha sido um capítulo que me apaixonou quando estudei, ainda criança, na História de Portugal, a saga de Viriato, o herói Lusitano, cantado por Camões.
Assim, a partir desse momento, comecei a ler tudo o que havia sobre este tema e a encontrar uma ligação musical que pudesse consubstanciar um festival.  O nome, foi das primeiras coisas que me surgiram, de forma muito expontânea, mantendo-se, até hoje, inalterado: Lusitânia Folk.
Comecei a acompanhar muito mais de perto todos os festivais da chamada Música Celta, tendo uma ligação muito especial e próxima, com um dos mais importantes que se realizam em Portugal, o Folk Celta de Ponte da Barca.  
Pelo meio, as 7 Maravilhas e a nomeação da Praia Fluvial de Loriga, a Comemoração do Foral, a ligação dos meus grupos musicais a Loriga, as colaborações com a ANALOR, com a Confraria da Broa e do Bolo Negro e com algumas comissões de festas de Loriga, bem como o estabelecimento de algumas relações com gente de gerações mais novas de Loriga, foram potenciando e alimentando este projeto que, não tendo data marcada, iria, forçosamente, realizar-se um dia.
Sem pressa, fui acumulando informação sobre os Celtas, a sua cultura, a sua mitologia, os seus rituais... A ideia, agora não era apenas um Festival, mas uma coisa mais vasta. Um evento que fosse marcante para Loriga e que fizesse reviver a memória dos nossos antepassados Lusitanos.
Tendo em conta a propensão atual para a realização de eventos com reconstituições históricas de várias épocas, com destaque para o período medieval, fazia sentido nós criarmos uma Feira Lusitana, reconstituindo episódios históricos desse tempo e era vivando rituais da cultura Celta/Lusitana.
Foi este o espírito do projeto que apresentámos ao Orçamento Participativo.
Em finais de setembro de 2016 sou desafiado pelo Adriano Lopes para avançar com o projeto que tinha na gaveta, do Festival Lusitânia Folk e da Feira Lusitana.
Achei que, como diz o povo, Deus escreve direito por linhas tortas... Este era um sinal de que, afinal, era possível mudar alguma coisa.
Reformulei o projeto inicial, para o redimensionar, uma vez que o OP apenas contemplava uma verba de 10 000€.
A partir daí, comprometi-me a 200% com este desígnio, salvaguardando sempre a necessidade de mobilizar Loriga, de unir Loriga, em torno de uma ideia comum, de que os grandes feitos são coletivos e não individuais. A partir desse momento, o projeto deixou de ser meu para ser de Loriga. E esse foi o segredo do nosso sucesso!... A equipa que, entretanto se criou, à volta desta realização foi inexcedível.


Devo destacar a liderança serena e tolerante do Adriano Lopes, mas também a capacidade engenhosa do Márcio Silva, que, entretanto, por razões profissionais se ausentou do país.  No entanto, o Luis Costa, o Luis Figueiredo e a Filipa Pereira assumiram a liderança da vasta equipa que levou a cabo a construção da "menina dos olhos" deste evento: A Casa de Viriato.




A Rita Gonçalves que assumiu juntamente com a Lurdes Ramalho a liderança do processo da confecção dos fatos, só possível porque um conjunto de voluntárias entrando no espírito do coletivo realizaram essa tarefa.
A Sílvia Pereira que ao longo do tempo, para além da sua colaboração com a equipa de construção, assegurou um conjunto de tarefas de apoio logístico sem as quais não teria sido possível realizar um sem número de iniciativas.
A Daniela Florêncio, responsável pela imagem, sem esquecer a colaboração do Luis Figueiredo e do Márcio Silva também nesta área.
O Gonçalo Cabral responsável pela comunicação multimedia, nomeadamente a construção do sitio da internet.
O José Francisco Romano, que ao longo do tempo foi um esteio do grupo pelas suas intervenções ponderadas, trazendo um contributo, de experiência feito, a um colectivo bastante jovem e cuja colaboração, culminou na confecção do magnífico almoço da Boda de Viriato.
O Jorge Alves, que sendo, também um dos mais experientes deste grupo, fez um excelente trabalho, em conjunto com a Sílvia, ao dar corpo, com um magnífico grupo de jovens, aos Rituais que encheram o olho a todos quantos assistiram ao desenrolar dos mesmos, ao longo do evento.
Um destaque para o Zé Mendes que escreveu e encenou O Casamento de Viriato, uma peça em dois atos, representada por loriguenses reunidos e organizados através da ANALOR - Associação dos Naturais e Amigos de Loriga.


O Cartaz do Festival Lusitânia Folk, contemplou três propostas diferentes dentro da música de raíz Celta. No primeiro dia, os "Roncos do Diabo", deram-nos a perspetiva mais tradicional portuguesa. No segundo, o "Anxo Lorenzo Trio", apresentou-nos a vertente Galaico-Irlandesa e no último dia, os "Albaluna", trouxeram-nos uma sonoridade mais abrangente, ao nível das músicas do mundo.


A Feira e as reconstituições dos rituais Celtas, deixaram todos quantos participaram ou assistiram, muito mais ricos, culturalmente falando, uma vez que ficaram a conhecer usos e costumes dos nossos ancestrais, contribuindo para uma maior compreensão das nossas raízes histórico/culturais.
Loriga está de parabéns, porque soube, mais uma vez, através da força cooperativa das suas gentes levar a efeito um realização que a todos enche de orgulho e que contribuiu para elevar da autoestima de uma comunidade que tem sido esquecida, quer pelo poder central que pelo poder municipal.

Dirão: Mas este projeto foi subsidiado pelo Orçamento Participativo.

Direi: Sim. Mas um evento com este alcance histórico/cultural, merecia ter sido visto com outros olhos pela área da cultura municipal, que aqui deveria investir, nem que fosse metade dos recursos que tem investido em realizações inóquas que, para além de não mobilizarem os munícipes, se revelam em autênticos fracassos, do ponto de vista da divulgação cultural.

A ideia inicial era criar um evento sustentável, duradouro e que pudesse ser replicado em edições futuras, criando impacto económico no tecido empresarial local, principalmente nas empresas ligadas ao turismo, mas, com criatividade e empenhamento, outros sectores poderão vir a beneficiar com a visibilidade que este tipo de eventos provoca nas comunidades que os realizam.

O futuro deste evento depende, assim, de toda a comunidade e não apenas do pequeno grupo que realizou  a primeira edição-

Todos seremos poucos para continuar esta tarefa! A segunda edição começa hoje, se todos dermos as mão e quisermos que ela se realize.
Mãos à obra!


Loriga, 19 de novembro de 2017


sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Videos de Loriga Divulgados pelo Projeto MPAGDP

De 2 a 5 de Abril de 20015, desloquei-me a Loriga, com a equipa da MPAGDP - Música Portuguesa a Gostar dela Própria. Para além do programa que foi transmitido pela RTP2, O Povo que Ainda Canta, gravámos inúmeros vídeos que hoje começaram a ser publicados.
Foram 4 dias intensos, com muito trabalho de recolha e gravação. Passados quase dois anos, a Música Portuguesa A Gostar Dela Própria, começou hoje a publicar, vídeos com as gravações efetuadas nessa altura.
Partilhamos aqui os primeiros:

Apita o Combóio - Adélia Mourita


Adélia Alves Jesus (Mourita) - Apita o Combóio from MPAGDP on Vimeo.


José Correia - Rapsódia


José Correia - "Vira" from MPAGDP on Vimeo.


Velhinhas de Alvôco da Serra - Carrasquinha


Mulheres de Alvoco - "Carrasquinha" from MPAGDP on Vimeo.

Adeus Terreiro do Fundo, cantiga do Cancioneiro de Loriga - Grupo Improvisado...


José Correia, António Dias, Fernando Pereira, Joaquim Gonçalves, Adélia Prata, Irene Mendes, Teresa Lages - "Terreiro do fundo" from MPAGDP on Vimeo.

Dois videos que imortalizam o falecido Fernando Pereira, recriando dois diálogos cantados, muito usuais na Revista à Portuguesa e nas sessões de Melodias de Sempre em Loriga...

Fernando Pereira com Adélia Prata... O diálogo cantado " Maleitas de Amor" do filme "João Ratão", de 1940


Fernando Pereira e Adélia Prata - "Maleitas de amor" from MPAGDP on Vimeo.


Fernando Pereira com Teresa Lages... O diálogo cantado " Rita e Manecas" da Revista "Rataplan", de 1925


Fernando Pereira e Teresa Lages - "Rita e Manecas" from MPAGDP on Vimeo.

O vídeo do Canto da Verónica com a Aurora Romano que o canta há mais de 40 anos...


Margarida Amaral, Cristina Romano, Aurora Ferrão, Aurora Romano - "Canto da Verónica" from MPAGDP on Vimeo.


Daremos notícias das próximas publicações.





sexta-feira, 26 de agosto de 2016

A Serra da Estrela e o Fumeiro... Economia familiar e economia de escala...


Na Wikipédia, encontrei esta descrição genérica de  FUMEIRO:

Fumeiro é nome genérico dado a carnes geralmente de porco, expostas ao fumo para conservação das mesmas ou para lhes conferir características únicas. Os presuntos e os enchidos ou embutidos são na sua maioria expostos ao fumo. Outras partes da carne de porco podem também sofrer o mesmo tratamento. Em diversas zonas da Galiza e outras zonas de Espanha e em distritos de Portugal como Vila Real, com maior destaque nos concelhos  de  Vinhais, Chaves e Montalegre), Bragança, Viseu (concelho de Lamego), Guarda e ainda no Alentejo, a indústria de fumeiro (também chamada de fumados) ou a feitura artesanal do mesmo é parte relevante da economia local.


No inverno passado, tive o privilégio de assistir, algures no norte, ao ritual da fabricação artesanal de enchidos.
Fiz alguns registos e, agora, com algum tempo decidi abordar aqui o tema do fumeiro e a sua importância na economia familiar da Loriga de outros tempos.
Ao rever estas fotos lembrei-me de escrever algumas linhas sobre este tema e pensar que,  nos tempos difíceis que vivemos, com a falta de oportunidades da região, se não seria uma ideia, pegar nestes conhecimentos ancestrais da economia familiar e, numa escala maior, poder lançar as bases de um negócio que, noutras latitudes tem atingido algum sucesso. É sabido, que  o clima frio propicia um fumeiro de qualidade. Ora, essa premissa, está garantida à partida. O resto é boa vontade e algum rasgo de empreeendedorismo. Haja vontade, uma vez que, ao que parece, até existem fundos comunitários para promover este tipo de projetos.

Fica a sugestão...



















Para complementar a informação deixamos aqui um artigo de Tiago Rentes, que encontrámos, ao pesquisar sobre o fumeiro. Ilustra muito bem todo o ritual que as famílias antigas  seguiam a partir da "Matança do Porco".

Da matança à "papança"...

Durante o Inverno, nas regiões do interior de Portugal é comum realizar-se a matança do porco, e daí obter o belo fumeiro (carne de porco exposta ao fumo), tão apreciado por todos.
Trás-os-Montes não é excepção, e é neste recanto do nosso país que o fumeiro, considerado uma das riquezas da gastronomia portuguesa, ganha características únicas como o cheiro e o sabor. 
O fumeiro que em tempos idos servia maioritariamente para consumo próprio, é hoje uma fonte de rendimento para várias famílias que vendem os seus produtos em feiras, como por exemplo, a feira do fumeiro deVinhais, muito conhecida a nível nacional, e noutros certames, principalmente gastronómicos.
Para que o fumeiro seja tão aclamado, requer conhecimento, que passa de geração em geração,muito trabalho e vários dias de confecção.
O trabalho começa ainda antes da matança do porco, com o arranjo das tripas que têm de ser bem lavadas com água morna, sabão, limão ou vinagre, e depois atadas.
O porco é geralmente criado pelas pessoas mas também  pode ser comprado.
Quando é morto, é-lhe aproveitado o sangue que posteriormente vai servir para a confecção do fumeiro doce, e queimado com um maçarico para ficar livre de bactérias e pêlos, depois é cortado em partes e limpo de vísceras.
A carne é cortada em pedaços pequenos, temperada com sal, pimento, água, vinho branco e rodelas de laranja.Permanece nesta espécie de calda durante dois dias.
As morcelas são o primeiro tipo de enchidos a ser confeccionado. Tendo como base o sangue do porco, esta espécie de “chouriça doce” é também constituída por pão,água, açúcar, canela, mel e amêndoa. 
Tradicionalmente este enchido serve de sobremesa. Come-se cozido.
No dia posterior ao da confecção das morcelas chega a vez de conceber as famosas alheiras.
Este tipo de enchido requer bastante trabalho e tem como ingrediente base o pão, que é migado ou cortado em fatias muito pequenas e finas.
Entre outros ingredientes, é essencial juntar ao preparado várias carnes cozidas, principalmente a carne do porco que fica junto aos ossos e uma galinha, e a gordura do porco que foi derretida ao lume. 
Tal como as morcelas, também as alheiras têm de passar por uma caldeira com água a ferver.
É muito comum comer este enchido assado.
O cheirinho a carne temperada abunda pela casa, e o quentinho da lareira ajuda a tornar o ambiente mais acolhedor para se começar a encheras tripas com os bocadinhos de carne.
Durante e após este processo, a tripa é picada para que liberte o ar e a carne fique unida.
Este enchido tem a particularidade de pingar gotas de tempero, durante aproximadamente uma noite.
Quando estiverem secas, as chouriças podem conservar-se dentro de potes de azeite e comerem-se cruas, assadas ou cozidas.
Depois de feito, todo o fumeiro é colocado em canas, e posto a secar ao calor da lareira e ao ar fresquinho das noites geladas do inverno rigoroso de Trás-os-Montes.
Passados oito a dez dias o fumeiro está no ponto e pode começar a ser consumido.
            Bom apetite!





segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Exposição Temporária de Instrumentos do Mundo no Museu do Brinquedo em Seia


Durante o mês de agosto, no Museu do Brinquedo de Seia, está patente ao público uma Exposição  sobre instrumentos musicais de todo o mundo. Estes instrumentos fazem parte da minha coleção pessoal e foram emprestados ao Museu do Brinquedo para que os visitantes possam enriquecer os seus conhecimentos sobre esta temática. Partilhamos aqui algumas das fotos com que o museu divulgou a exposição na sua página do Facebook

20 de agosto... Atualização de informação: Foi acordado entre mim e a Direção do museu que a Exposição permaneceria até dezembro, tendo em conta o interesse que vem sendo manifestado pelos visitantes. 





A Exposição  está dividida por continentes, sendo que Portugal tem um destaque, por haver num número significativo de Instrumentos Tradicionais Portugueses. Depois temos o resto da Europa, África, América e a Ásia e Oceania estão em conjunto.
Quem puder, não deve perder esta oportunidade de ver, ao vivo e a cores, um conjunto de instrumentos musicais que são reveladores da riqueza cultural das regiões de onde são originários. É que a historia de um povo, passa muito pela forma como interagem as pessoas e a música é, sem dúvida, uma linguagem verdadeiramente universal.


Atualização de Informação 10/8:


Estive hoje no Museu do Brinquedo, em Seia, para visitar a Exposição Temporária, construída a partir de uma parte dos Instrumentos Musicais da minha Coleção Pessoal e fiquei surpreendido com o resultado conseguido pela equipa do museu, a quem, desde já endereço os meus parabéns. De facto, os meus instrumentos ganharam brilho e tormnaram-se muito mais valiosos para mim, quando os vi naquela sala, distribuidos por continentes, a apelar aos visitantes para descobrirem a sua magia e a retratarem as culturas e as geografias de origem de cada um deles. Quem passar por Seia, não perca esta oportunidade e visite o museu.
Aqui ficam os registos fotográficos da minha visita



















sábado, 12 de setembro de 2015

Cirio de Vila Chã e Casais Galegos à Misericórdia...Tradição com mais de sete séculos.

Nos passados dias 7,8 e 9 de setembro, colaborámos na realização deste Círio de Vila Chã e Casais Galegos à Misericórdia. Vila Chã e Casais Galegos são duas localidades que pertencem à Freguesia de Ventosa, no concelho de Alenquer. As gentes destes locais, mantêm esta tradição desde o remoto ano de 1253, há, portanto 762 anos.





Capela de Nossa Senhora da Misericórdia  
Casal da Misericórdia, Moita dos Ferreiros - Lourinhã 

Mas o que levará esta gente a manter esta tradição durante tanto tempo? E porque  começaram a fazer isto? Que razões levam as pessoas a deslocar-se de um local no concelho de Alenquer, até um outro, localizado no concelho da Lourinhã, já muito próximo do Bombarral, com carros e tratores enfeitados e, ao chegar cumprir um ritual secular, permanecer aí durante dois dias, dormindo ao relento e regressar, cumprindo outras partes do ritual, dois dias depois?
Vamos contar um pouco da história, que faz parte de um prospeto de divulgação deste círio, publicado pela organização da edição de 2015, os irmãos, Maria Albertina Apolinário e Luis António Apolinário:

" Ao Santuário da Nossa Senhora da Misericórdia, acorreram, desde tempos remotos, oito círios que percorriam grandes distâncias, em devoção a Nossa Senhora, em cumprimento de promessas antigas. São eles: O Círio de Vila Chã e Casais galegos, Círio da Aldeia Grande, Círio dos Penedos, Círio de Vila Verde dos Francos, Círio da Labrugeira e, por fim, o Círio do Vilar, que, em peregrinação, rumavam anualmente, para aqui celebrar, todos os anos, as festividades da Natividade de Nossa Senhora, nos dias 7,8 e 9 de setembro. Em tempos houve, também, o Círio de Peniche, que se deslocava em romaria a esta capela, pela Páscoa, celebrando o Divino Espírito Santo. 
Hoje em dia, co esforço, dedicação e muita devoção, são cinco  os círios que realizam estas peregrinações anuais.
Esta tradição que, como referimos, tem já 762 anos, teve o seu início com o Círio de Vila Chã e Casais Galegos, que, por razões de escassez de água para as suas sementeiras, foram pedir auxílio a esta Senhora. Pensa-se que, por volta de 1600, por influência de uma epidemia fatal, tenham surgido os Círios de Vila Verde dos Francos e da Labrugeira.  Mais tarde, por volta de 1713, em cumprimento de uma promessa antiga, organiza-se o Círio da Aldeia Grande.
Durante séculos a peregrinação realizada por estes cinco círios, era efetuada em juntas de bois e carroças, percorrendo percursos bastante atribulados, demorando um dia e 3 ou 4 horas de viagem. Fruto da evolução, estes hábitos foram-se alterando, sendo o percurso, atualmente, efetuado por tratores agrícolas e carrinhas de caixa aberta, reduzindo significativamente a duração  para cerca de duas horas de caminho."

Vamos explicar melhor a concretização deste ritual.
O círio começa com o peditório, algum tempo antes. No caso concreto, começou a 30 de agosto, com os festeiros e o gaiteiro, como é de tradição a percorrerem as localidades envolvidas, pedindo para o círio e aceitando as encomendas dos bolos de ferradura.



O peditório...


O peditório foi realizado cinco lugares, Freixial de Cima, Freixial do Meio, Parreiras, Casais Galegos e Vila Chã. Começámos às 9h e acabámos perto das 21h, já de noite.

No dia 5 de setembro, sábado, mais uma etapa. Foi a"Entrega dos Mordomos". Trata-se de uma tradição muito interessante, na qual os responsáveis pelo círio, que no dia do peditório aceitaram encomendas dos Bolos de Ferradura (aqui apelidados de Mordomos), típicos da região Oeste, marcam um dia para a entrega dos mesmos e, nesse dia, em pontos chave de cada localidade, fazem a sua distribuição, sempre acompanhados do gaiteiro. 






Entrega dos "Mordomos"... 

O curioso é que, para além dos bolos, distribuem, também, vinho que irá servir para acompanhar a degustação dos mesmos. A distribuição começou às 18h, em Freixial de Cima, seguido de Parreiras e Casais Galegos e terminou já noite dentro, pelas 22h, em ambiente de festa, na localidade de Vila Chã.

E o dia do círio chegou!... No dia 7 de Setembro, segunda feira, o Círio de Vila Chã, em conjunto com o de Casais Galegos e ainda o de Aldeia Grande, rumaram à Misericórdia, onde ficaram até dia 9, quarta feira. 





Organizou-se o Cortejo em Vila Chã e seguiu em procissão até à saída da localidade, em direção a Casais Galegos. Aqui, juntou-se o cortejo desta localidade e ambos seguiram até à Aldeia Grande. 




O Círio da Aldeia Grande, bem maior que os que acompanhávamos, reunia um significativo número de carros, todos engalanados. seguramente umas duas dezenas de carros que seguiram em procissão com as bandeiras e os pendões à frente do cortejo, ao toque do gaiteiro, com temas religiosos, seguiu até às localidades vizinhas de Casais da Valentina e Valentina, também elas integrantes deste círio da Aldeia Grande.

Pelo caminho há uma paragem obrigatória na capela de Casal Novo dedicada ao Imaculado Coração de Maria. Aqui, para além de se fazerem algumas orações individuais e o gaiteiro tocar músicas de louvor a Nossa Senhora, alguns dos habitantes locais preparam um lanche que oferecem aos romeiros dos círios.


Capela do Imaculado Coração de Maria
Casal Novo, Moita dos Ferreiros - Lourinhã 

Chegados à localidade de Casal da Misericórdia, na Freguesia de Moita dos Ferreiros, concelho da Lourinhã, onde se situa a capela, cada círio organiza a sua procissão que, após dar três voltas à capela, termina com a entrada nesta, para que os romeiros possam agradecer as graças concedidas ou cumprindo as suas promessas ou pedir outras graças e bênçãos a Nª Srª da Misericórdia.








Depois dos compromissos religiosos vem a festa e a animação, sempre presentes nestas ocasiões em que as pessoas se reúnem, em volta de tradições e rituais de caráter mais espiritual.
A animação durou até à noite e, no caso do círio da Aldeia Grande, foi pela noite dentro.
O dia seguinte, dia 8 de setembro, foi o dia da Missa Solene. Era o dia da Natividade de Nossa Senhora e o cântico de Entrada, bem como o Cântico final, dedicados a Maria, foram acompanhados com órgão e gaitas de foles. Foi lindo!...






Depois... foi a animação e o almoço em jeito de piquenique.






No dia 9 de setembro era o regresso. Chegava ao fim o Círio de Vila Chã e Casais Galegos. Após a missa, ainda na Misericórdia, os círios regressam às suas localidades de origem.
Era, também, o dia da "Entrega da Bandeira" aos "Festeiros" do próximo ano.
Este ano coube a Vila Chã e no próximo ano a Casais Galegos. 
Começámos com alguma animação junto à Associação de Vila Chã.


Depois, lá fomos em procissão, ao som de gaita de foles, com repertório religioso, de Vila Chã até Casais Galegos, para entregar a "Bandeira" (pendão do círio, com a imagem de Nª Srª da Misericórdia), na casa da "festeira" do próximo ano.








Foi uma experiência muito interessante e gratificante  na qual participámos na qualidade de gaiteiro.
Mais uma tradição que vivenciámos e que aqui divulgamos, com o propósito de ajudar a  preservar e incentivar os intervenientes, para que não se percam na voragem destes tempos, pouco propícios a rituais baseados nos valores espirituais, de um povo que tem sobrevivido suportado  nestes valores.








Ocorreu um erro neste dispositivo