Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Tradições de Loriga - O Jogo do Óculo...


 canela com fio

A tradição industrial de Loriga remonta a meados do Séc. XIX, quando em 1850  aí se instalou a primeira fábrica de Lanifícios, movida a força hidráulica motriz.
As grandes rodas, movidas pela força das águas que desciam das altas serranias da Estrela, acionavam os engenhos que, com grandes correias e uma cadeia de outras rodas, movimentavam toda uma sorte de mecanismos, desde a fiação à tecelagem, da cardação à ultimação, num constante e ruidoso vai-vem, a que as gentes de Loriga se foram adaptando, com o decorrer dos anos.
Terra laboriosa e empreendedora, foi construindo, ao longo do tempo uma comunidade cada vez mais numerosa e, consequentemente, o número de crianças foi gradualmente aumentando, atingindo nos anos 60 do Séc. XX o auge de crescimento, com a Escola Primária a rebentar pelas costuras, com 4 turmas de rapazes e igual número de raparigas. Nenhuma terra da região, excluindo, talvez, a sede do Concelho, teria tantas crianças como Loriga.
As crianças davam um colorido muito especial e um movimento inusitado às suas ruas e vielas e as brincadeiras, tradicionais, recriadas ou mesmo inventadas eram a ocupação preferencial da “pirralhada”.
De entre as muitas atividades lúdicas que, na altura, sobressaíam nas ruas da vila, havia uma que, intimamente ligada aos lanifícios, dependia, em absoluto, dessa atividade industrial. Era o Jogo do Óculo.
Como a necessidade aguça o engenho, a criatividade das crianças levou-as a inventar este jogo, que fazia a síntese de vários outros. Tinha algumas semelhanças com o “chinquilho ou malha”, pois tal como nesse jogo havia um lançamento de um disco, embora muito mais pequeno, o óculo.
Havia também alguma similitude com o berlinde, uma vez que o objetivo era “abafar” o óculo do adversário através da aproximação ao mesmo, à distancia de um palmo.
Este era, no entanto, um jogo muito original e que fazia uso da matéria prima que abundava nas “lãzeiras”, locais onde eram depositados os resíduos industriais, à época.
Antes de mais convém explicar o que é o óculo. Trata-se da base da canela de madeira que era usada nas lançadeiras dos teares. Um disco metálico com um orifício no meio que reforçava a base das canelas, para as proteger quer nas caneleiras, máquinas onde se enchiam as canelas de fio, quer nas lançadeiras que com o seu vai-vem, nos teares iam tecendo as peças de fazenda.

Lançadeiras e canela

Quando as canelas estavam danificadas eram, normalmente, inutilizadas e  depositadas nas “lazeiras”. Era lá que as crianças as recolhiam e tratavam de as despojar dos óculos.
Havia dois tipos de óculos, cujo valor relativo era diferente. É que para além de serem ganhos ao jogo, podiam, também, ser objeto de troca entre as crianças que se dedicavam a este “desporto”.
Assim, os óculos de latão eram os menos valiosos. Na troca valiam um para um. Já os de alumínio, por serem mais pesados e, por isso,  darem alguma vantagem no jogo, valiam três e às vezes quatro dos outros. Algumas das crianças até atribuíam a estes óculos o nome de “bonzura” porque, pelo seu peso e pela diferença de atrito, eram muito bons no arremesso e na maior capacidade de controle e de precisão dos seus movimentos de aproximação aos óculos dos adversários.
O objectivo deste jogo era ganhar os óculos aos adversários. Poderia ser jogado por dois ou mais jogadores.
O jogador ganhava um óculo ao seu adversário quando, ao arremessar o seu, o mesmo ficasse à distância de um palmo ou menos de um palmo, do óculo do seu adversário.

Uma das variantes do jogo é que o mesmo poderia ser jogado com a utilização de uma parede.
Quando jogado sem a utilização de uma parede, era sorteado quem seria o primeiro a arremessar o seu óculo. Este dirigia o disco para um local aleat omo primeiro tendo a finalidade de se aproximarem do mesmoto bons no arremesso e na maior capacidade de controleoriamente à sua escolha.
Os concorrentes seguintes lançavam os seus discos na direção do primeiro, com a  finalidade de se aproximarem do mesmo.
Ganhava aquele que, ao lançar o seu óculo, conseguisse colocá-lo à distância de um palmo, ou menos, do óculo de outro participante. O jogo terminava, sempre que um jogador conseguisse arrebatar os óculos dos outros que estivessem em jogo
Sempre que o jogo recomeçava, quem iniciava os lançamentos era o vencedor do jogo anterior.

Na variante do jogo com a utilização de uma parede, procedia-se, igualmente, à escolha do primeiro concorrente a jogar. Este, colocava-se de frente para  uma parede contra a qual atirava o seu óculo, tentando colocá-lo o mais longe possível da parede, para não dar vantage aos adversarios. Esta variante tinha algumas particularidades que tornavam o jogo um pouco mais elaborado. Os jogadores poderiam utilizar os pés para permitirem uma aproximação mais precisa aos óculos dos adversaries. Para tal colocavam os pés em forma de V, no local onde estava o óculo que pretendiam arrebatar e  arremessando o seu contra a parede ele poderia, mais facilmente aproximar-se pois tinha a barreira formada pelos pés que não deixava o óculo afastar-se desse local.
Como na variante anterior, ganhava o jogo o jogador que conseguisse arrebatar os óculos dos adversarios.
Uma das particularidades mais interessantes desta atividade lúdica era a forma como os óculos eram guardados. Assim, cada participante, arranjava um cordão, um “baraço” como na altura se denominava e os óculos eram enfiados nesse baraço, que era normalmente pendurado à cintura. Como as duas pontas eram atadas, uma na outra, o conjunto dos óculos enfiados no baraço assumia uma forma de chouriça e por isso lhe davamos o nome de “Chouriça de Óculos”.
A grande glória dos jogadores era exibirem as suas “Chouriça de Óculos” e quanto maior fosse o número de chouriças, maior glória era alcançada. Eram exibidas como se de autênticos troféus se tratassem.
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