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sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Os Círios e a Gaita de Foles... Uma tradição da Estremadura


Os Círios, são rituais de romarias populares, muito celebrados na Estremadura, particularmente na Região Oeste.
Trata-se de romagens de grupos, mais ou menos numerosos consoante a importância das localidades onde são promovidos, a locais sagrados onde, ancestralmente, se celebravam as colheitas, as graças recebidas e se pedia protecção para as pessoas e os animais, tão necessários às tarefas agrícolas.
Há ainda uma quantidade razoável de rituais deste género em que os grupos se deslocam do interior para locais de culto situados no litoral. Outros realizam-se levando os grupos, dos vales e planícies para santuários situados em locais elevados como serras e montes.
Dois exemplos concretos de Círios que ainda se realizam ou realizaram há pouco tempo são o Círio da Ribeira de Pedrulhos (Torres Vedras) para a Praia de S. Julião, no Concelho de Mafra, perto da Ericeira. O outro é o Círio de Ponte do Rol (Torres Vedras), para o Santuário de Santa Cristina, na Serra do Socorro.
Relativamente a este último, deixamos aqui um vídeo realizado por António Caldas, que nos autorizou a publicá-lo aqui ( o que, desde já agradecemos):


Nestes rituais, a Gaita de Foles assumia um papel de destaque. Por um lado, devido à sua mobilidade, por outro a dignidade que lhe era atribuída, como instrumento nobre ao qual era permitido entrar na Igreja, colocavam-na numa situação privilegiada para participar, nestes actos cerimoniais.
A par da tradição religiosa popular destes rituais, havia, também associado um outro ritual profano, de carácter gregário, que era o pretexto para reunir amigos e familiares e celebrar o Círio, comendo, bebendo e dançando.
Assim, uma parte era dedicada ao ritual religioso mas havia uma outra parte dedicada ao ritual profano. Também aqui a Gaita de Foles, continua no centro do ritual, sendo responsável pela animação, agora com um repertório de outro cariz mais ligeiro.
Mais uma vez nos socorremos de um video do António Caldas, que nos mostra a "Festa", com a Gaita de Foles do Ti Joaquim Roque, um dos mais proeminente gaiteiros da região.




Joaquim Roque é, com 75 anos de idade, o último tocador de gaita-de-fole vivo no concelho de Torres Vedras e um dos últimos gaiteiros antigos em toda a Estremadura. Nasceu a 24 de Março de 1936 na Cadriceira, Freguesia de Turcifal, residindo actualmente em Pedra Pequena, na Freguesia de S. Pedro da Cadeira.

Ao longo dos últimos cinquenta anos, a sua actividade como gaiteiro levou-o a acompanhar os círios do concelho aos mais diversos santuários religiosos da Estremadura, tendo ainda contribuído com a sua arte musical para a alegria e divertimento do povo torreense, nos bailes de aldeia, nos bailes dos círios, no cortejo do Carnaval, quer ainda em simples convívios vicinais.

O seu saber, os seus dotes musicais, a simpatia e a disponibilidade para ensinar fazem de Joaquim Roque uma figura ímpar, sendo estimado por todos os que com ele têm convivido, entre os quais cumpre destacar os jovens tocadores de gaita-de-fole, que dele têm colhido importantes ensinamentos ligados a este instrumento musical.

Por influência e estímulo de Joaquim Roque, trabalhador rural que ainda hoje mantém a sua actividade de gaiteiro, alguns destes jovens participam hoje em círios do concelho de Torres Vedras, perpetuando assim no presente e no futuro próximo uma prática musical que remonta a grande antiguidade na região Oeste, e que Joaquim Roque soube manter viva até hoje.


A versatilidade deste instrumento, permitiu-lhe manter-se no centro da tradição musical desta região, como se pode constatar pela leitura dos textos da responsabilidade de José Alberto Sardinha, publicados, no site At-Tambur.

Para ler esses textos clicar sobre o Link:

Deixamos aqui um pequeno excerto desses textos:

"Para além da função lúdica, a gaita-de-foles assume na Estremadura um importante papel cerimonial, de que, desde logo, se destaca o acompanhamento de peditórios, os mais variados, mas todos eles ligados a assuntos piedosos: reportamo-nos de novo às gravuras antigas que já citámos, nomeadamente as que representam o gaiteiro no peditório para a Sopa dos Pobres e para a Festa do Espírito Santo. Em geral, todas as festividades religiosas, designadamente como já dissemos os círios, incluíam – e incluem ainda – um peditório organizado pelo Juiz e pelos festeiros que, encabeçado pela «bandeira» ou pendão do santo festejado e ao som da gaita-de-foles, percorre, desde umas semanas antes da festa, as ruas da aldeia bem como as localidades vizinhas e, às vezes, até longínquas (como foi o caso, de termos encontrado o Círio de Almeirinho Clemente a Santa Quitéria de Meca fazendo o peditório em plena vila da Ericeira)."

Deixamos, aqui, também um descrição de um dos Círios mais importantes do Concelho de Alenquer:

De entre estas peregrinações colectivas, o Círio de Olhalvo à Senhora da Nazaré ocupa um lugar de relevo, apesar de ter perdido o seu aspecto primitivo, e com ele o colorido das galeras enfeitadas e a frescura da música da gaita-de-foles ou da flauta pastoril.

Inicia-se na sexta-feira anterior ao terceiro domingo de Setembro. Um dia antes da partida, os festeiros percorrem os três lugares da freguesia fazendo um peditório.

Noutros tempos, na época das descansadas galeras, a partida era na Quinta-feira, ao som festivo do estalejar de foguetes e morteiros. À frente iam o pendão e a bandeira, levados por cavaleiros, seguidos das muitas galeras engalanadas.

Dormia-se nas Caldas da rainha e pela manhã de Sexta-feira dava-se a chegada ao Santuário. Hoje já não é preciso dormir nas Caldas. Os automóveis possibilitam que se parta na manhã de Sexta-feira.

Mas o cerimonial no santuário não mudou. A chegada é pelas 10 horas. À entrada da povoação, o pároco e a banda de música esperam os peregrinos e em procissão dirigem-se todos para a igreja do santuário. Aí, depois de dadas três voltas em torno desta, segue-se a missa cantada com sermão.

Nos cadeirais que rodeiam a capela-mor sentam-se os festeiros do Círio e dois deles seguram tochas de ambos os lados do altar. Na procissão que se segue à missa compete a homens do Círio pegar às varas do pálio.

E porque à Nazaré se ia, nessa altura, só por esta razão, imediatamente se pensava na volta.

Pelas três da tarde, ao som do badalar dos sinos, punham-se as galeras em marcha para o regresso. Outra noite dormida nas Caldas e, pelas cinco da tarde de Sábado, chegava-se a Olhalvo para deixar na igreja o pendão e a bandeira. Com transportes mais rápidos, o regresso tem, hoje em dia, lugar no Domingo - as insígnias são recolhidas na igreja às cinco da tarde.

Segunda-feira parte o cortejo do Círio do lugar do Cruzeiro, Olhalvo, para a igreja.

Depois das três voltas tradicionais nas ruas em frente do adro, o cortejo entra na igreja que, nesse dia, é pequena para acolher devotos e peregrinos. A ladainha e um sermão encerram o Círio à Senhora da Nazaré.

A tradição do círio de Olhalvo mantém-se, precisando-se, até, na sua organização. Sendo, de início, comum a toda a freguesia, passou, em determinado momento (quando, não se sabe), a ser tomada alternadamente por festeiros de cada um dos três principais lugares da freguesia: Olhalvo, Pocariça e Penafirme da Mata.

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