Blogue Iniciado em 31 Julho de 2008

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terça-feira, 16 de março de 2010

Recordando... Tradições da Minha Terra - A Semana Santa e a Páscoa


Se há época do ano fértil em acontecimentos marcantes na Tradição Loriguense é a Semana Santa e a Páscoa. A preparação da Visita Pascal deixava os lares num alvoroço. Era a altura de arear tachos e panelas.
Com a chegada da Primavera vinha também o sol que permitia pôr tudo a arejar. Era a altura da limpeza geral!... Para além disso a cozinha entrava também em superprodução... Eram as Broínhas, os Biscoitos, o Bolo Negro, o Pão Leve... e lá ia tudo para os fornos que, por esta altura estavam superlotados.
E havia que preparar as sobremesas especiais para o Domingo de Páscoa: O tadicional Arroz Doce com Creme, a Tapioca, tradição introduzida em Loriga pelos emigrantes do Brasil, o Carôlo, o Formigo e outras de acordo com a capacidade financeira e a criatividade das cozinheiras. Os rituais religiosos ganhavam, nesta altura, uma dimensão muito mais profunda, assente numa tradição secular de respeito, recolhimento e devoção profunda.
O Domingo de Ramos era marcado pelo denso "matagal" de oliveiras que enchiam as ruas e a Igreja. Sim, porque em muitos casos, não se transportavam ramos, mas autênticas oliveiras com troncos significativos.

Via Sacra dos Homens

À noite, a Via Sacra dos Homens, evocando a caminhada de Jesus até ao Calvário. Recordo os cânticos, entoados por aquelas vozes graves, soturnas e com ritmos quase fúnebres, carregando, ainda mais, uma quadra que, só por si, já era bastante triste.


Senhor dos Passos com Maria e João (imagens que protagonizam o Encontro)

Na Quinta-Feira Santa, a cerimónia do Lava Pés revestia-se de uma mística especial e aqueles homens que eram escolhidos para a integrarem, viviam aqueles momentos com um realismo que nos transportava para os tempos bíblicos. Este era, também, o dia da Procissão dos Passos onde se dava o Encontro do Senhor dos Passos com Maria sua Mãe e João.

O canto da Verónica - video de Tó Amaro

Também durante esta procissão cantava a Verónica, mostrando ao povo o pano com que tinha limpo o rosto do Senhor e no qual ficou retratado em sangue. Este ritual era tanto mais significativo, na medida em que foi protagonizado pela minha irmã Aurora, durante largos anos.

O canto da Verónica - video de Tó Amaro


Nessa noite participava, ainda, com o meu pai, na Ementa das Almas, com cânticos diferentes dos que se cantavam nas madrugadas de Domingo durante a Quaresma. Era a vez de cantar os Martírios, cântico que, de acordo com o que investiguei, é o mais "Gregoriano" de quantos fazem parte deste ritual.
Sexta-Feira Santa era um dia carregado de mística e, à hora marcada como a da morte do Redentor, 15 horas, todos faziam silêncio, onde quer que estivessem e meditavam por breves instantes neste mistério da morte de Jesus.


O Enterro do Senhor

À noite era o Enterro do Senhor, procissão carregada de simbolismo. A Banda Filarmónica executava uma Marcha Fúnebre. Confesso que, nos primeiros anos da minha infância, este ritual me causava um certo temor, já que os homens da Irmandade levavam as opas negras e cobriam as cabeças com os respectivos capuzes.


A Matraca

De salientar que, durante esta semana não se ouvia o sino. Este era substituído pelo ecoar estridente da Matraca que percorria as ruas da vila para anunciar os ofícios religiosos cumprindo a função que normalmente estava atribuída ao sino. Este voltava a tocar em toda a sua plenitude no dia da Ressureição, Domingo de Páscoa, quer para anunciar as cerimónias quer, sobretudo, para anunciar a, tão esperada e desejada por todas as crianças, VIsita Pascal, que em muitas zonas do norte é mais conhecida por "Compasso". Os sinos de Loriga, numa harmonia perfeita vão tocando a melodia que as crianças pelas ruas vão repetindo: - Andai, andai, andai... Que o Padre já lá vai!


Os sinos da Igreja de Loriga entoando a melodia que anuncia a Visita Pascal - video de Tó Amaro

Algumas destas práticas foram-se perdendo, mas penso que ainda perduram algumas delas e espero que os Loriguenses não as deixem morrer, já que são a marca indelével, da tradição religiosa, que nos foi legada, desta quadra festiva.

Fotos recolhidas em www.loriga.de de Adelino Pina

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